Vai animada e interessante a discussão na caixa de comentários do texto escrito pelo futuro colega Ricardo Oliveira sobre
A profissão farmacêutica e o ensino farmacêutico em Portugal.
Só queria acrescentar três coisas, todas relacionadas com os professores de farmácia:
1 - Num país normal o coordenador de um curso de ciências farmacêuticas só pode - obviamente! - ser farmacêutico; nunca, mas nunca, pode ser, por exemplo, um engenheiro químico, doutorado em bioquímica, como julgo acontece na Universidade do Algarve. Porque o conceito de químico-farmacêutico deixou de fazer sentido há décadas e hoje um farmacêutico necessita de uma formação multidisciplinar assente no eixo fundamental fisiologia - patologia - farmacologia. Ser Doutorado em Bioquímica não atesta que se saiba coisa alguma sobre o doente e a doença. Senão, dêem-me um exemplo de um Bioquímico ou de um director de uma faculdade de medicina, de medicina dentária ou de enfermagem. Uma aberração.
Mas não é só na universidade do Algarve que as coisas estão mal,
2 - na constituição da equipa docente de um curso de ciências farmacêuticas deveria, obrigatoriamente, haver um número alargado de professores com experiência da profissão - no balcão das farmácias, na bancada dos laboratórios, nas fábricas de medicamentos. Infelizmente, pelo que julgo saber, a maioria dos professores são professores de "aviário", nunca sentiram o cheiro exalado pelo doente, nunca sentiram as suas angústias e medos, nunca sujaram as mãos com sangue. Muitos nem estão inscritos na Ordem dos Farmacêuticos. Ora estes professores de "aviário" vivem num mundo virtual em que imaginam a realidade da saúde em Portugal e as necessidades dos profissionais que estão a formar. Não se podem esperar bons resultados deste sistema.
Bem sei que todos temos que ganhar a vida,
2 - mas a lealdade não deveria ser um valore tão subestimado e tão fora de moda. E a mim parece-me desleal que professores do curso de ciências farmacêuticas, supostamente farmacêuticos, criem cursos que formem concorrentes para os seus próprios alunos, como é o caso dos cursos de farmácia biomédica e ciências bionalíticas - que não sei bem o que são, nem para que servem. Também não me parece leal que estes professores leccionem em cursos técnicos, de análises clínicas e de farmácia, contribuindo para uma confusão de atributos e competências entre profissões só possível num país desestruturado como o nosso. Ainda, se não for pedir muito, alguém deveria dizer claramente ao poder político que, mesmo sendo uma profissão eclética, não são precisos tantos cursos nem tantos farmacêuticos.
Claro que com este texto conquisto uma nova vaga de inimizades e antipatias, mas, lamento, é a opinião sincera e desinteressada de um farmacêutico experiente e com brios na profissão.