Dava muito jeito, ó se dava, que a culpa pela cegueira dos seis doentes do S. Maria ficasse confinada a um serviço lá em baixo e a dois jovens inexperientes (mesmo a intervenção simultânea em dois olhos de um doente). Mas convém não esquecer, sublinhar até, que só os Tribunais têm a faculdade de condenar.
A culpa não deve morrer solteira e não é minha intenção defender quem quer que seja. O meu interesse, como o de toda gente, é apenas que se retirem responsabilidades e consequências, ao contrário do que é costume neste país. Mas fico perplexo por num caso tão complexo e de difícil prova - a não ser que haja confissão de acto - muito rapidamente se fazer saber quem são os culpados.
Independentemente do desfecho deste caso interessa chamar a atenção para o trabalho complexo e de muita responsabilidade exercido nas farmácias hospitalares - Compatível com o experiência de dois jovens de 30 e 24 anos? Existem as condições, os meios técnicos e humanos para um bom desempenho? - e para a necessidade imperiosa de procedimentos da qualidade e do cumprimento de boas práticas - A Farmácia tem implementado e mantido um sistema de gestão da qualidade certificado? Os procedimentos documentados são sempre cumpridos? Existe um plano de formação e de integração? Os procedimentos são os adequados, são os esperados para um hospital universitário de referência? Que é isso da "designação manuscrita", é suposto haver "designação manuscrita" em formas injectáveis? Se houve um erro, que factores contribuíram para essa ocorrência, que causas? As boas práticas estão comprometidas por critérios economicistas?

Falta apurar muita matéria!... Se o Vara não é considerado culpado, porque o haverá de ser o farmacêutico Hugo Dourado (que até pode ser culpado, mas talvez não o seja sozinho, seja simplesmente o mexilhão)? Por mim, por enquanto,
in dubio pro reo.
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PS - Vem a propósito acrescentar o exelente texto de Vladimiro Jorge Silva:
«(...) Como não conheço os serviços farmacêuticos do HSM nem o farmacêutico envolvido, não me posso pronunciar sobre o que se passou. É no entanto muito estranho que no final das contas a culpa (mediática, não necessariamente jurídica) seja apenas de duas pessoas, ao que parece, peixes menores da cadeia alimentar do maior hospital do país. Em primeiro lugar, porque a haver culpados não seriam só dois - numa farmácia hospitalar que se prezasse, o circuito daquele medicamento teria passado por vários outros profissionais, cabendo a validação final a farmacêuticos mais graduados e em segundo lugar porque não se ouvem referências à necessidade de lançar a discussão pública sobre o modo e as circunstâncias em que funcionam as farmácias hospitalares portuguesas. De facto, nos últimos anos a utilização de medicamentos em meio hospitalar tem sido abordada de uma forma gestionária e economicocêntrica. Os farmacêuticos hospitalares são (des)considerados como engulhos a um processo determinado essencialmente por critérios económicos e médicos, desperdiçando-se as respectivas competências nas áreas farmacoterapêuticas e do conhecimento farmacodinâmico e farmacocinético. Esta cultura errada tem um efeito paradoxalmente oposto, pois a pouco eficaz utilização dos medicamentos hospitalares tem um custo económico significativo, certamente muito maior que os ganhos eventualmente proporcionados pelas micropoupanças conseguidas pelos licenciados em sociologia que cortam as unhas rentes e pululam pelas administrações dos hospitais. No entanto, o que é verdadeiramente grave são as tragédias humanas provocadas pelo desinvestimento nesta área - se se provar que o HSM, o maior hospital do país, não tem um bom serviço de farmácia hospitalar, de quem é a culpa? Se isto for verdade, quem deveria estar no banco dos réus? Os anónimos e possivelmente precários funcionários de 30 e 24 anos que trabalham no HSM entre dois recibos verdes ou os administradores hospitalares que acham que a farmácia hospitalar não serve para nada?»
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