Tenho escrito várias vezes aqui sobre a unidose, mas a pedido de um comentador ilustre e amigo vou tentar resumir a minha posição entre uma garfada de arroz de pato e um relance ao noticiário:Luís,
Não sou assim “tão avesso à unidose”; sou contra mas não tanto, porque a unidose não é para mim uma questão fundamental na política do medicamento.
Sou contra a unidose, por duas ordens de razão:
- Política, pois não sendo esta uma questão fundamental é tratada, a espaços, como se a sustentabilidade do SNS dependesse da sua implementação, como se dela decorressem poupanças tais que a despesa com medicamentos e o desperdício ficassem completamente controlados. A unidose é uma medida populista (para quem não acompanha de perto a problemática do medicamento, e numa primeira abordagem, a medida parece uma panaceia - mas não é!) e, consequentemente, é cobarde (porque estratégias efectivas de controlar a despesa e o desperdício dos medicamentos não são seguidas, nem sequer discutidas, por influência dos vários stakeholders do sector - a unidose é apenas uma máscara, um disfarce para a cobardia) e hipócrita (a legislação publicada a semana passada é um hino à hipocrisia e tem quatro níveis de garantia de que nunca terá efeitos práticos: só a título experimental, só em Lisboa, só em farmácias aderentes, só com prescrição médica por DCI).
- Técnica, por ser uma metodologia a) obsoleta (Que países civilizados têm apostado, hoje, séria e consistemente na unidose? Que farmacêuticos têm apresentado trabalhos em congressos, artigos ou estudos, defendendo a unidose nos moldes que o Governo e os políticos portugueses defendem), b) pouco higiénica (a manipulação – mesmo que apenas da embalagem primária e não da forma farmacêutica ela própria – por milhares de farmacêuticos e técnicos de farmácia em ambientes altamente contaminados - incluindo por H1N1 - como são as Farmácias é necessariamente menos higiénica que a infraestrutura automatizada, asséptica e controlada de uma indústria de medicamentos), c) mais cara (a incorporação de mão-de-obra especializada no processo encarece-o e, obviamente, alguém pagará…) d) muito mais insegura (maior taxa de erros de dispensa na farmácia, maior taxa de erros na toma pelo doente, maior dificuldade de controlo de prazos de validade, maior dificuldade em assegurar a rastreabilidade e mais difícil farmacovigilância) e maior exposição à contrafacção (problema não negligenciável, importante em todo o mundo, especialmente em Portugal onde o INFARMED é de uma inoperância gritante e onde os políticos apelaram, legislando, à venda de medicamentos pela internet).
O racional redimensionamento de embalagens, tal como preconizado por Luís Filipe Pereira, é uma metodologia muito mais eficaz para evitar o desperdício de medicamentos. Claro que há sempre subterfúgios possíveis, há sempre como contornar o estorvo – foi o que aconteceu!
Ninguém tem coragem para Governar a sério - alguém tem de pagar as campanhas eleitorais e financiar os partidos e dar emprego às primas. Por isso há sempre uma unidose qualquer para distrair o povoléu.
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