Recebi um mail que, por me parecer bastante pertinente, passo a editar:
De: joana s < @msn.com>
Data: Terça, 30 de Setembro de 2003, 23:17
Para: impressoesdeumboticariodeprovincia@sapo.pt
Assunto: Obrigado!!
"Sr dr, chamo-me Joana S, tenho 21 anos e sou carteira de profissão, nunca fui muito dedicada aos estudos e a minha formação escolar para os tempos que correm é muito reduzida, contudo tento manter-me informada e tento evoluir por conta propria.
Leio há muito tempo o seu blog, que muito aprecio. Noto que é escrito por uma pessoa que trabalha no duro como eu, ajudando as pessoas nos seus problemas mais importantes.
Atraída por um link incluído no "Impressões de um boticário" estive a analisar com cuidado o "médico explica". Realmente o homem só fala de Farmácias e Farmacêuticos, quando devia era preocupar-se com os médicos e os doentes.
Eu não conheço bem nenhum médico. O meu, lá no Centro de Saúde, já não o vejo há anos. Ora está de férias, ou de greve (O Dr. Bento do sindicato dos médicos, que aparece na TV, é parecido com o carniceiro da minha terra, engraçado...), ou doente, ou foi a um congresso, ou está mal disposto (estou ansiosa para entrar para o quadro para poder usufruir da maravilhosa regalia dos funcionários do estado, que é estar mal disposto), ou numa reunião, sei lá. Da última vez que o vi, pedi-lhe um atestado por estar muito doente, o que ele recusou; mas à minha colega Rosa, que foi ao consultório privado dele, passou-lhe logo um para 15 dias - para ela ir às vindimas - e outro para o filho poder faltar aos exames do 12º ano.
É um maroto este médico, gosta muito de dinheirinho, diz que ganha mal pelo estado, mas anda num Mercedes melhor que o do Sr. Manuel das pontes, o empreiteiro. E ainda outro dia o ouviram a dizer que está morto que as Farmácias possam ser de qualquer um e em qualquer sítio, para que sejam compradas por cadeias de multinacionais da indústria e distribuição farmacêutica e assim poder ganhar comissões nos medicamentos que receita. Não perdoa uma!
Ele também era o médico da minha mãe, a quem receitava muitos remédios caríssimos. Ela só se queixava que tinha má memória, se esquecia muito; será da idade já que de resto tem uma saúde de ferro; mas ele insistia que ela tinha um esgotamento. Viemos a saber depois que era um daqueles muitos que têm acusações por corrupção, em associação com laboratórios. A minha mãe nunca mais lá foi, ganhou-lhe medo e diz que não confia mais nele nem nos colegas.
Aliás, o meu pai também lhes ganhou cisma, desde que no hospital lhe disseram que tinha um problema grave na próstata, que podia dar em cancro, e que tinha que ser operado o mais rapidamente possível; mas que não podia ser no hospital, porque a lista de espera era de mais de um ano; no entanto se ele fosse à clínica e pagasse uns 1000 contos, isso fazia-se já, e ainda lhe passava um relatório e metia uma cunha para a reforma antecipada. Lá teve que ser, vão-se os aneis fiquem os dedos.
A minha irmã Etelvina é que se dá bem com a obstetra dela, está muito satisfeita. É impecável a senhora. Para sair mais barato o acompanhamento do parto, faz-lhe ecografias, análises e exames caros no hospital, nos dias em que está de urgência, e depois leva-os para o consultório. A minha irmã não paga mais nada por isso, dá-lhe apenas uns presuntos e cabritos como agradecimento. Nós todos se calhar é que pagamos; mas está bem, o estado é rico.
Ora então, agora que se faz tarde, vou ter que terminar.
Vou continuar a ler o seu blog, que é muito menos presunçoso que o do médico (agora meteu lá uma série de mails trocados com o jovem "bactéria blog", que não se percebe nada) e muito mais amigável (o médico diz-se insultado pelo seu texto de sexta-feira, mas é preciso falar com a boca toda, este país está infestado de sacanas com falinhas mansas).
Muitos beijinhos
Joana S.