Nas últimas semanas escrevi aqui, umas três vezes, sobre maus médicos, replicando a um médico blogueiro que considero ter opiniões pouco isentas sobre os farmacêuticos. Tinha a intenção de não voltar ao assunto.
Embora o facto de nesse blog se defender a liberalização da propriedade e da instalação das Farmácias merecesse uma pergunta, que não cheguei a fazer: então porque não defendem a liberalização da instalação de faculdades de medicina?
E como hoje não se falou de outra coisa que não fosse a entrada em medicina da filha do ministro, cá vão mais umas canhotas para a fogueira.
A que se deve o anseio generalizado dos jovens Portugueses em cursar medicina?
1- Embora nos tentemos convencer que somos um país Europeu, só o somos - na verdade - geograficamente, já que de facto Portugal é um país Sul-Americano. Na Colômbia também todos querem ser médicos.
2- Porque tirar medicina garante, logo aos 18 anos, um bom emprego para toda a vida, na função pública, e uma boa reforma.
3- Porque ser médico dá prestígio social, e dá licença para actos de grande utilidade à família e amigos (alguns interesseiros também), como passar receitas, atestados, declarações médicas, entradas nos hospitais, cunhas nas listas de espera, etc, etc.
4- Mesmo num mundo materialista e imoral, muitos jovens gostariam de exercer uma profissão que é bonita, por ajudar pessoas fragilizadas e que sofrem.
Daí que a grande maioria dos estudantes gostassem de estar em medicina e não no curso que realmente frequenta. A exclusão começa logo a meio do liceu: aqueles que não têm inclinação nenhuma para matemática, desistem e vão para letras e licenciam-se em direito, jornalismo, psicologia, sociologia, etc. Depois, os outros, no fim do liceu, vão para farmácia, biologia, química, bioquímica, aquacultura, agronomia, etc. Isto pode ser caricatural mas não anda longe da verdade.
E quem são os eleitos?
1- Muitos são os que entram por regimes especiais, as portas de cavalo, os filhos de embaixadores, os pseudo-atletas de alta competição, os pseudo-imigrantes ou pseudo-ilhéus, os falsos estudantes do ensino recorrente e tudo aquilo que a imaginação consegue engendrar.
2- Depois vêm os "kitados", aqueles que frequentaram colégios que inflacionam as notas e aqueles que são acompanhados desde cedo por explicadores-treinadores.
3- A seguir os obsessivos-compulsivos que não sabem - nem nunca saberão - fazer mais nada que não seja bater com a testa, insistentemente, nos livros.
4- Finalmente aqueles que são alunos realmente muito bons, com capacidades acima da média.
Estudantes de medicina que simultaneamente caibam nos pontos 4 dos dois grupos anteriores devem ser poucos.
Agora, finalizando, e fingindo que issto é um estudo encomendado pelo governo ou por uma fundação, surge uma recomendação e uma conclusão:
a) Se há falta de médicos e há muitos candidadatos a médicos, deve permitir-se que as instituições de ensino superior privado invistam em cursos de medicina, devidamente regulados e fiscalizados no que respeita à qualidade de ensino. Fácil.( Acabavam-se as horas extraordinárias faraónicas e a saúde dos drs. era acautelada porque não ficavam no consultório a facturar até taõ tarde.)
b) Os alunos de Farmácia, que na lista de rejeitados vêm em 2º lugar, são verdadeiramente os alunos mais bem preparados e os mais completos. O curso de Ciências Farmacêuticas aprofunda um vasto leques de conhecimentos (química; física; botânica, zoologia e medicina; matemática; gestão, etc). É então natural que os quadros da classe farmacêutica sejam os mais bem dotados de valor e que em breve alguns deles se notabilizem, sendo até provável que algum deles venha a ocupar altos cargos nacionais, como Primeiro Ministro ou Presidente da República, especialmente se tiver um apelido esquisito começado por "P".