Já tive muitos ofícios nesta vida.
Tive trabalhos do qual dependiam vidas (Fui responsável por um serviço de sangue e preparar uma transfusão não permite erros. Uma vez levei uma tampa de uma enfermeira e escrevi, num saco de concentrado de glóbulos rubros: zero negativo, em vez de AB positivo, felizmente telefonou-me uma anestesista e, entretanto, corrigi o erro.) e tive trabalhos perigosos (Fui ajudante de mineiro. Quando andávamos a fazer um minete num poço de 9 metros, meteram-me uma vela de dinamite, com o rastilho aceso, no bolso de trás das calças, como nos desenhos animados. Felizmente o dinamite não explode sem detonador, mas eu na altura não sabia!). Já fui assalariado rural mas também já fui director geral de uma empresa farmacêutica.
Há uns anos que não experimento novas actividades.
Esta tarde, enquanto giboiava após uma feijoada à transmontana acompanhada de um “Quinta de Vallado” tive uma ideia para um negócio.
Vou-me meter na Indústria Farmacêutica. Não que vá fazer uma fábrica de medicamentos, com departamento de I&D e tudo!
Vou começar devagarinho, claro, vou investir uns tostões depois logo se vê.
A ideia é explorar produtos que não existam (ou que não se conheçam) mas que possam ter utilidade para os farmácias. Não vou inventar nada, apenas vou adaptar produtos ás necessidades dos consumidores – doentes.
Desenvolvi de imediato três produtos, que vou expôr:
1- Soro fisiológico para uso oftálmico e para nebulizações.
Trata-se de soro fisiológico estéril que se apresenta em cartuchos unidose, descartáveis; 2 mL para uso oftámico e 5 mL para nebulizações.
O S.F. é um bom meio de cultura para bactérias, fungos, protozoários, algas e etc, etc. Depois de aberto, a 25º C, temos passados uns tempos, um ecossistema tipo Amazónia. Muitos dos frasquinhos de S.F. que se vendem nos super e hipermercados, nem precisam de se abrir, já são suficientemente cosmopolitas. Mesmo os de 30 e 50 mL que se vendem na Farmácia, tem uma inscrição que diz: aplicação nasal!
Alguns pais fazem nebulizações às criancinhas, com nebulizadores ultrassónicos de 130 euros, mas usam a garrafa de S.F. de 1L que já era do ano passado!
Algumas jovens mamãs lavam os olhinhos dos seus bébés com S.F. inquinado de fungos e algumas jovens donzelas conservam as suas lentes de contacto azuis num líquido que lhes pode trazer umas irritações nas conjuntivas que as fazem ficar com um ar duvidoso.
2- Paracetamol, supositórios doseados a 100, 200, 300, 400 e 500 mg.
O Ben-u-ron ou o Panasorbe em supositórios a 250 mg diz: para crianças de 1 a 6 anos. Então uma criança de 1 ano e 1 dia tem a mesma dose de uma criança com 5 anos, 11 meses e 29 dias? E o tamanho do supositório é o mesmo? E alguns médicos receitam uma colher de xarope de 8 em 8 horas. Uma colher de quê? E o meu faqueiro é igual ao teu?
O meu paracetamol (medicamento genérico) vai ser um sucesso.
3- Rebuçados peitorais do Dr. Peliteiro. Sem açucar, com Vitamina C.
Quem não se lembra dos rebuçados do Dr. Bayard? Agora retiraram alguns componentes da fórmula e vendem-se em confeitarias. Tanta gente pergunta se não há uns rebuçados para a tosse. Embora não seja grande especialista em fitoterapia, vou desenvolver uma fórmula baseada em extractos de plantas, óleos voláteis e essências balsâmicas que tenham propriedades expectorantes, broncodilatadoras, anti-inflamatórias e antimicrobianas.
O que é Português é bom.
É claro que não vou produzir, nem distribuir. Monto escritório em casa e trabalho apenas com empresas idóneas, aqui de perto.
O S.F. será produzido na Labesfal, em Campo de Besteiros (grande obra social tem feito o Dr. Almiro!), e embalado na Maialab (do Dr. Paulo Alexandre, o maior especialista nacional em galénicos); o Paracetamol na Bial; e os rebuçados na Vieira de Castro, em Famalicão (que até tem um farmacêutico como director de formulação, desenvolvimento de produtos e controlo de qualidade). A distribuição vai para a Cofanor. Faço umas circulares para os farmacêuticos e médicos, e pronto, está tudo.
Que tal?