Hoje de manhã tive que ir à sede regional de um organismo público. Tenho lá um processo em "andamento" há mais de três meses.
Ai coitados dos funcionários que lá trabalham! Ai que desgraçadinhos, aquilo deve andar toda a gente encharcadinha em benzodiazepinas e antidepressivos. Até dá pena...
Na entrada o porteiro mandou-me para o 1º andar. Subi umas escadas escuras e sujas, pejadas de beatas caídas lá de cima. No átrio estavam, numa secretária, duas mulheres a olhar para o nunca; numa saleta contígua, dois homens conversavam sobre futebol. Dirigi-me às senhoras - não me atrevi a interromper a conversa futebolística. Lá expus as minhas pretensões e uma delas puxou de uma fotocópia (de uma fotocópia de fotocópia) em A4, escreveu o meu nome e a secção a que eu me deveria dirigir; a outra sacou, de uma gaveta, um mapa enorme com uns quadradinhos minúsculos e fez umas cruzes.
Espere aí.
Uma delas agarra no telefone e a outra passa a olhar de novo para nunca. A D. Manuela não está no gabinete, diz a do telefone; a outra nem pestaneja. A D. Otília deve estar em formação; a outra nem pestaneja. A D. Teresa tem a linha ocupada; a outra nem pestaneja. Estou, D. Gracinha, está aqui um senhor que assim e assim e assado e que diz que isto já dura desde Junho, e tal e tal.
Espere aí mais um bocadinho.
O meu carro estava mal estacionado, o ar estava saturado e cheirava a
Aspergillus, as paredes sem pintura, os móveis esmurrados, o furador colado com fita-cola, as esterográficas "Bic" atadas com um atilho, uma lista telefónica de 98, uns cartazes colados nos vidros do tempo dos papiros do Egipto antigo. As duas olhavam agora para o nunca; os dois homens, aparentemente sem funções, com uns códigos em cima da secretária, diziam que o Mourinho isto e o Pinto da Costa aquilo, não não, ele vai, vai vai, se fosse o Deco...
Parecia um filme do Fassbinder.
E lá estava eu e mais uns quantos, a fingir que não olhávamos uns para os outros, a tentar adivinhar o que cada um de nós lá faria. Quando entra mais um "utente", ficamos todos quietos, calados e arrebitámos a orelha para ouvir a conversinha. Eu quero saber se tenho dereito, os meus dereitos, não posso ficar sem os meus dereitos - ninguém perguntou pelos deveres, nos longos minutos que lá fiquei. Curioso.
Entretanto levantei-me da cadeira de tábua dura, já com cãibras nos glúteos. Comecei a caminhar de um lado para o outro, que nem um tigre de Bengala enjaulado, batendo com os tacões dos meus sapatos e o peso dos meus quase 90 Kg nas lajes puídas da sala. Volta e meia expelia um jaculação de ar pelas narinas, como um touro na arena.
Estou, D. Gracinha, por acaso não se esqueceu do senhor do processo xpto? Não? Pronto, ele espera.
Ai valha-me Deus!
Passa o grupo da formação, são muitos. Olá Emilinha, foste ao cabeleireiro, fica-te bem, é castanho acobreado? Não? Castanho caju? Ha, castanho mogno, sim sim, devias fazer umas madeixas em vermelho fogo, está na moda...
Enfim, lá fui chamado ao gabinete da D. Gracinha. Um gabinete enorme e vazio, repleto de arquivadores de argolas, com um rádio "Oscar" ligado na RR, igual ao que eu tinha quando andava no Liceu.
Dei-lhe a fotocópia da fotocópia que me deram na entrada e a D. Gracinha nem olhou para ela, atirou-a com ganas para o caixote do lixo, cheio de fotocópias de fotocópias.
Era uma mulher magríssima, fumadora compulsiva, aspirava o fumo como se fosse o último fôlego, a pele tisnada, agitadíssima. Ó D. Filomêna ligue-me para o Artur e pergunte-lhe pelos documentos que eu lhe pedi. Estou estou, agora não posso. Ó D. Filomêna ligue-me para este número: 223253257 e diga para me mandarem o fax. Repita o número D. Gracinha, mais devagar D. Gracinha. Aponte o número mulher, já o disse 3 vezes, tenho mais que fazer, e preciso de ir à casa de banho, olhe vá-me buscar um café curto. Estou estou, agora não posso! Catrapumba, o telefone no descanso.
Olhe, diz ela, este cabeçalho está errado, a fundamentação está incompleta, assim isto não passa. Quem lhe fez isto? Venha cá amanhã, eu não lhe expliquei tim tim por tim? Não leu a norma? É sempre a mesma coisa... O meu café D. Filomêna? Ligue-me ao Custódio.
E lá saí eu de mansinho, aliás já nem existia naquele gabinete, era apenas uma sombra, diminuído pelas tarefas dificílimas daqueles heróis da causa pública que ali trabalhavam em condições que faziam perigar a sua saúde física e mental. Bem o sei eu, que sou dos poucos lorpas que conheço que já foi funcionário público e deixou de o ser.