O bem mais precioso dos nossos dias é a atenção.
Se tempo vale escudos, atenção vale euros.
Ninguém nos ouve, ninguém nos liga, somos muitos.
Os publicitários devem sentir isso de uma forma angustiada, já ninguém ouve, lê, ou sequer vê os anúncios. Os nossos cérebros estão programados para eliminar as mensagens publicitárias: num jornal não adianta fazer um anúncio de página inteira, porque passamos por ela e nem a vemos; na TV, nos espeaços publicitários mudamos automaticamente de canal ou vamos à casa de banho.
Quem ouve os políticos, quem liga ao conflito Israelo-Palestiniano, à ocupação do Iraque, aos incêndios florestais, e às notícias dos jornalistas? Quem quer saber do deficit, do buraco de ozono, do tratado de tordesilhas, da questão de Olivença, ou das conferências do Prof. Marcelo? Tudo isto, ouvido uma vez, atinge uma dimensão distante, impessoal, longínqua, estranha. Quem quer saber disso?
Mesmo os conteúdo sexuais já não movem ninguém, maminhas ao léu e coisas que tal já não perturbam nem os menos avisados. Quem, hoje, iria até Madrid para ver o censurado “O último tango em Paris” ou quem muda de canal para ver o NUtícias?
A informação é imensa, e cai-nos em catadupa. Se formos ao “google” e pesquisarmos uma palavra, por mais rara que ela seja, por exemplo priapismo, somos inundados por incontáveis referências mais ou menos contaminadas por lixo e contrainformação. Há mais de 2.000 blogues em Portugal; ninguém os lê. Todos sabem falar de tudo mas, é sempre pela rama. A nossa capacidade de memória é limitada; só sabemos os títulos, as gordas, nunca aprofundamos a matéria. Excesso de informação gera superficialidade.
Falta de atenção rima também com solidão. A solidão é um fenómeno massivo, vivemos rodeados de pessoas e, no entanto, cada vez mais sózinhos; a solidão não é um sentimento exclusivo dos mais velhos, manifesta-se nestes, de uma forma mais aguda, mas atinge-nos a todos.
Os pais não dão atenção aos filhos, e pagam isso em Barbies ou Action Man. Os filhos não dão atenção aos pais, e pagam isso metendo-os em lares de luxo. Os maridos nem olham para as mulheres, mesmo que elas pintem o cabelo e façam lipoaspirações, e pagam isso em joias e futilidades. As esposas desprezam os maridos, mesmo que eles façam ginásio para derreter a barriga, e pagam em ingenuidade falsa e botões-de-punho.
Um dia vi uma senhora, numa bicha interminável á entrada do Porto, a gritar por socorro, em pânico, aterrada, histérica, pois o seu carro, encostado à berma, estava a começar a arder. E estava mesmo, a avaliar pelo fumo que saía do capot. Pois ninguém a ajudou, ninguém tinha um extintor, ninguém a sossegou, ninguém se dispôs a perder o lugar na bicha e a chegar atrasado mais uns minutos. Eu, covardemente (ou cobardemente, tanto faz), também não, e depois senti remorsos e vergonha. Mas ela não existia, era um holograma, não mereceu a atenção de nem um condutor.
Estamos cada vez mais isolados na nossa ilha deserta.