Impressões de um Boticário de Província
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Amanita muscaria

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Desde Maio de 2003


Quarta-feira, 16 de Julho de 2003

Lá pelo fim da década de oitenta, fazia eu, todos os dias pela manhã, a estrada Famalicão - Vila das Aves. Era uma estrada em paralelo, fraca, sem bermas e mal conservada. Uma estrada quase rural. Mas as viaturas que lá circulavam eram uma delícia; era ver os Mercedolas, os Bêemes, os Porchetas, e até alguns Rolls e Ferraris. Devagarinho, de vidros abertos, cotovelo fora da janela, para toda a gente ver quem lá ia a comandar a máquina. Era uma feira de vaidades matinal.
Era uma época doirada, sentia-se o cheiro do Rei Midas, qualquer encarregado de fiação ou fiel de armazém que soubesse assinar um cheque e conseguisse roubar um cliente ao seu patrão, se transformava rapidamente em empresário. E claro, a primeira coisa que fazia era comprar um carrão e mandar construir um palacete desenhado ao gosto da mulher (arghhhh). As empresas nasciam como cogumelos e os amanhãs que cantam eram hoje.

Já na altura eu comentava com a minha irmã, parceira de viagem, que havia ali qualquer coisa que não batia certo, que não tinha lógica. Ou a estrada era alcatroada, sinalizada e alargada ou os carros haveriam de desaparecer. O cenário repetia-se um pouco por todo o país.

Bom, agora vê-se que afinal aquela ostentação toda tinha alicerces de barro, não há telejornal que não mostre uma falência, não há jornal que não tenha diariamente aqueles anúncios de penhoras e de executados. Ao menor sinal de crise, à mínima constipação, o destino é fatal. Não há resistências, não há reservas. Assistimos à grande purga. Um fenómeno de selecção natural.
Infelizmente muitas famílias de trabalhadores foram aspiradas pelo grande turbilhão e muitos inocentes foram triturados. Entretanto, muitos desses destemidos empreendedores transformaram-se em vigaristas profissionais, evoluiram de patos bravos para milhafres predadores. Desabituaram-se de trabalhar e agora vivem de expedientes ( alguns transformaram-se em políticos, devia até haver cursos finaciados de reconversão profissional ).

Esta crise é útil, custa-nos a todos, mas é um ciclo que termina, é uma purificação. Aguardamos uma nova geração de empresários, gente que com valor para planificar, empreender e crescer, com consciência e responsabilidade social. Que viva a crise!

Peliteiro,   às  23:50

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