«Um dia como o de hoje, em que percorri dezenas de sanzalas pintadas numa infinidade de matizes e sorrisos de crianças, em que me deliciei com a transparência e doçura de todos os sons de África a convergirem em simultâneo na Igreja da aldeia, e em que mergulhei no transe estético nas Quedas de Kalandula e Muçalege, fez-me realmente perceber que o tempo tem outra dimensão muito para além da quantidade. Tem a qualidade. Não foi apenas mais um dia. Foi o dia.»
Ler mais aqui.
«O posto medico tão pequeno, longínquo e tão no meio do nada apresenta-se com uma insignificância enganadora. Salva milhares de vidas. Tem um papel determinante no apoio e prevenção da malária, na vacinação para diferentes doenças, na prevenção da Sida. Apoia também nas necessidades básicas das populações. Dificilmente se poderá fazer tanto com tão pouco.»
Ler mais aqui.
«Tempo de continuar para o local mais desejado. O local tantas vezes pensado. As míticas Quedas de água dos Duque de Bragança. Conhecidas agora como as Quedas de Kalandula. As segundas maiores de África. Galgando novas picadas, amortecedores sempre testados para lá do impossível, à medida que nos aproximávamos a minha ansiedade aumentava. Tinha esperado tanto por este momento. Agora ali tão perto.
O som chega primeiro. O som da água. A grande distância. Vai aumentado. O nosso entusiasmo acompanha-o. Paramos a carrinha, saltamos energicamente para fora. Ainda nada tínhamos visto e já tão inebriados. O primeiro olhar acontece. Inefável e mágico. Um milagre da natureza bem à nossa frente. A força de toda a África a implodir numa detonação de água em movimento. Os meus olhos agradecem. Nunca viram nada tão belo. Mais de trezentos metros de comprimento e cento e tal de altura davam aquele lugar uma dimensão à qual os sonhos não se atreveram a chegar. Uma amálgama dos sentidos a fundirem-se num só. Não é apenas o ver, o ouvir, o cheirar. É tudo junto. É sentir. O caudal multiplica-se e desdobra-se numa infinidade de caminhos e gradação de cores em que os azuis e os verdes imperam numa plasticidade absorvente. A harmonia daquele caos em que todos os elementos parecem fazer sentido é fascinante e comovedora. O arco íris ao fundo, ao que dizem sempre presente anuncia um tesouro por descobrir, mas que eu percebo de imediato que não é mais do que o milagre de estar ali!! Entusiasmamo-nos de tal forma que damos por nós a saltitar nas últimas pedras que nos separam do abismo. Não queremos saber. Estamos em êxtase. Queremos filmar e fotografar sem parar. Queremos ver tudo. Queremos tudo. Mas a vertigem manifesta-se e desperta-nos o bom senso.»
Ler mais AQUI.
«O motorista vinha bem acompanhado. Uma rapariga na casa dos vinte anos, cor do chocolate mais negro que eu já vira, olhava-nos com curiosidade. Arrancamos em direcção a Kalandula que ficaria a hora e meia de caminho. Em poucos minutos , deu para perceber que o motorista de nome António, seria um guia excelente e era dotado de enormes recursos linguísticos na arte de bem falar ao coração das moçoilas. Cinquenta e cinco anos apuraram-lhe as palavras que suavemente faziam estragos como a agua na pedra dura. Um Casanova como guia. Tamanho caudal de doçura, ritmo e perspectivas, faziam os olhinhos vivos da rapariga brilhar como dois diamantes no rio Lucala. Tinha-a apanhado numa sanzala e oferecera-se para lhe proporcionar um passeio agradável. A viagem prometia.»
Ler mais AQUI.
Crónicas de Angola #3 - Um dia na Casa do Gaiato de Malange
Uma grande família
«Ainda tem tempo de se aproximar do velho com mais de 100 anos que dormia com o seu quase tão velho chapéu do MPLA e gritar-lhe bem no ouvido: UNITA, UNITA... Aqueles 100 anos transformam-se em 15 e o velho em felino tal o salto que dá...!! E sorri. Sorriem os dois. Sorrimos todos. Arrancamos para a lagoa grande com um dos gémeos, o Jacinto como guia. Alguns metros à frente e a caixa aberta da carrinha esta à pinha. Quer tudo ir dar um mergulho na maior das lagoas da casa. Enorme. Momentos muito agradáveis de convívio e conversa com a rapaziada. As primeiras impressões. Damos depois a volta e vimos pela lagoa pequena. É ainda mais bonita. Paramos para filmar e fotografar. Mais à frente uma senhora dá banho a cinco filhos numa bacia pequena. Recebe-nos com um grande sorriso e um olá tão bem soletrado em português. Mexe connosco e faz-nos pensar. Uma conversa assim tão natural num sítio tão longínquo e improvável. Brincamos com os miúdos e com a maior naturalidade do mundo a senhora levanta-se, pega na bacia e vai atrás de um arbusto pequeno tomar grande banhoca. Tinha chegado a vez dela.»
Ler mais AQUI.
Crónicas de Angola #2 - Um dia na Casa do Gaiato de Malange
« ... Leva-nos Casa do Gaiato adentro ate á casa principal onde nos apresenta a tia Montse e o tio Bartolomeu. Um casal de espanhois que já correu mundo em regime de voluntariado. Muito simpatica a tia, serve-nos o jantar que tinha sido feito pelos miúdos. Parece que à noite são sempre eles que cozinham. Arroz com carne de vaca. Um piteu para mais aquela hora e depois de uma viagem tão longa, movidos apenas a caju. Entra o padre Eduardo que nos é também apresentado e que com grande sentido de humor, logo nos diz que pelos vistos hoje nao vai poder jantar. Estavamos a dar-lhe cabo do resto do tacho... está neste registo humorístico uma boa meia hora enquanto ao seu lado o dos patos vai contando mil histórias num frenesim indescritível. Uma dinâmica tremenda naquela sala onde o padre Americo observa com um sorriso numa foto pendurada. Um entra e sai constante de miúdos de todas as idades. Educadamente batem à porta e aparecem com tantas histórias e pedidos. A tia desdobra-se como pode enquanto o padre Eduardo e o tio Bartolomeu ripostam com um humor cirurgico todas as solicitaçoes da criançada. Sempre com o som do Adao de fundo. Isto promete. Ás tantas entra um rapaz alto, de olhar para baixo e de uma educacao extrema. É nos apresentado como o lider, o chefe, o responsável. Foi eleito para este ano pelos cento e tais gaiatos da casa. Dá para perceber porquê. Toda a organização das tarefas da casa passa por ele. Depois delega hierarquicamente por outros miúdos...»
«Chegados finalmente a Luanda. Aeroporto Internacional. Somos imediatamente confrontados com os esquemas de sobrevivência que os empregados do aeroporto têm preparado. Uma mala puxada para um recanto, um viajante que se afasta do grupo principal e o funcionário que se dirige a ele e lhe exige gasosa para que não haja problemas. Tudo se resolve. Não vai haver problema. (...) Fazemos as primeiras filmagens enquanto esperamos. A simpatia do povo comove-nos. Uma hora depois a constatação que a câmara de ar não tem reparação. Há que ir comprar uma à terra mais próxima. Ao Dongo. Foi colocada mas era pequena. Comprar outra. Também pequena. Vai ter de dar assim. É colocada. É enchida. Está furada...Grande atraso na viagem. Mas tão bem passado. Tanta alegria. Tanta simplicidade. E a língua portuguesa na boca da mais pequena das crianças, do mais velho dos idosos. Sentíamo-nos em casa. Bem tinha razão o Pessoa. Lá arrancamos até Malange. Agora de vez. A casa do gaiato como destino. Uma entrada imensa. Dois guardas armados de vigia. Primeiro encontro com o Adão. Adão dos patos. Que são três e dos patos é para distinguir. Já tratou deles e a alcunha ficou. Uma alegria transbordante.»
Ler mais AQUI.
O nosso Zé Tó Passos - pintor, fotógrafo e realizador - participou num projecto muito interessante que passou pela realização de um documentário em Angola, que será apresentado no próximo Sábado, no Porto. Durante esta semana os textos, imagens e vídeo publicados no Láudano com morangos serão aqui replicados para assim podermos apreciar fragmentos desta fantástica aventura.
«Em Setembro deste ano tive a felicidade de fazer uma viagem inesquecível por terras Angolanas. Nos próximos dias vou deixar aqui no blog umas crónicas de viagem. A apresentação do Documentário será no Porto no próximo dia 19 às 10.45 da manhã como indica oconvite. Apareçam que serão todos muito bem vindos...»