No seguimento dum post anterior onde se abordou a relação entre a capacidade de satisfazer as expectativas dos cidadãos relativamente ao Sistema de Saúde face aos recursos limitados e possíveis implicações dum parecer do CNECV que suscitou reacções de escárnio, maledicência e espanto, gostaria de alertar que isto não é nada de novo e que sempre existiu e existirá... pois as necessidades de saúde são ilimitadas... Tivéssemos 100 biliões de euros para gastar em Saúde e seriam poucos e como é óbvio é impossível desviar todo o dinheiro do Orçamento de Estado e o "orçamento pessoal" para este tipo de necessidade...
Mas para aqueles que se disseram escandalizados eu pergunto?
O que são critérios para prescrição de antibióticos?
Em que se escolhe o que tem a melhor relação custo-efectividade e onde se "guardam" os antibióticos mais poderosos para a última "linha" evitando resistências evitáveis...O que são as listas de espera para Cirurgias?
Senão métodos de racionar o acesso a cuidados dispendiosos, em tempo útil, mantendo uma procura artificialmente alta?
O que são os sistemas de triagem em Urgência?
Onde se aplicam critérios de racionamento de procura e oferta face à incapacidade de atender todos os utentes ao mesmo tempo, aumentando a prioridade dos doentes que ganham mais em serem atendidos rapidamente face aos que podem esperar mais um pouco...
O que são critérios de admissão em Cuidados Intensivos?
Onde sabendo-se que cada doente tem um elevado custo, onde a tendência será permitir mais intervenções geradoras de sofrimento e potencial obstinação terapêutica , onde artificialmente se pode induzir um caminho mais fácil e menos esforçado para evitar a admissão em Unidades de Cuidados Intensivos e existindo escassez de camas se força automaticamente a um racionamento da oferta de cuidados aos doentes que maiores benefícios podem obter sem pôr em risco um eventual fim de vida caracterizado por acções desmesuradamente "interventivas"?
O que são decisões de não reanimação?
Onde se estima ou decide o limite para a intervenção no esforço de prolongar ou salvar uma vida humana ou a própria definição de vida Humana?
O que são as medidas de "planeamento familiar" como aborto ou um qualquer método contraceptivo?
Onde se raciona a capacidade do(s) pai e/ou mãe ser capaz de continuar a sua vida não tendo o "estorvo" de mais uma boca para alimentar ou uma cara não desejada para onde olhar... ( este é um exemplo deliberadamente exagerado)
O que são as políticas de recursos humanos do SNS?
Onde se restringe o acesso a vários tipos de cuidados limitando o número de profissionais empregados para os prestar, por exemplo enfermeiros, fazendo com que vários doentes não tenham acesso a cuidados tão básicos como alguém alimentá-los sem por em risco a sua segurança, a não ter enfermeiros em número suficiente para ajudar um doente na sua própria higiene pessoal, tendo este de esperar vários minutos ou horas para que haja alguém disponível para impedir que a presença de urina ou fezes provoquem mais lesões (por sua vez bem mais caras que a solução original) ou ainda que se aumente em larga escala a possibilidade de serem vítimas dum erro terapêutico face à carga de trabalho excessiva?
É que se falamos de equidade e justiça... tem de ser para todos... E como diz a velha máxima... Ou há moral ou comem todos...
Não é isto tudo racionar?
Por isso não entendo o porquê de tanta indignação quando nos deveríamos centrar em saber se podemos fazer mais com menos que basicamente o caminho que estamos a percorrer... Quanto mais tempo adiarmos este modo de ver o problema... mais difícil será a sua resolução.
PS: Do que li do parecer, entendi que se pretendia focar o custo efectividade das intervenções, garantindo que o argumento moral de que a Saúde não tem preço não seja usado mas sim, com menos fazer o mesmo ou melhor e que apesar de todo o compromisso ético dos profissionais de saúde, é preciso que estes sejam ajudados a decidir o correcto...
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