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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Prescription Drug Overdoses: A US Epidemic

5 comentários:

  1. Caro Peliteiro,
    Acho que falamos de realidades bem diferentes.
    A bem ou a mal, os nossos médicos não nos medicam com vycodin só porque estamos constipados ou temos enchaqueca.
    Por ter havido essa permissividade nos EUA ao longo de anos e de haver diferenças legais interestaduais (já não falo do factor cultural e da apologia à não regularização do sector privado) é que a coisa chegou onde chegou. Por outro lado, em muitos estados dos EUA, não existe um sistema de reporte eficaz da prescrição e dispensa de medicamentos estupefacientes e psicotrópicos. Estamos a falar de realidades bem diferentes.
    A título de curiosidade, espreite só a reportagem da current sobre este assunto:
    http://www.youtube.com/watch?v=J7DHMqHFSB8
    Estamos a falar de tráfico "legalizado" de medicamentos. De lucro "legal" obtido por farmácias/médicos pela prescrição/dispensa de estupefacientes a toxicodependentes, em estados afectadíssimos pela crise do subprime.
    Não é credível que este fenómeno aconteça em Portugal:
    - temos um baixo consumo de estupefacientes (vycodin, etc nem existem no mercado). A maioria é de receita restrita, e os que não são, pelo preço e pela fraca procura, são de baixa expressão no mercado português. Excepciona-se o dolviran, por motivos "culturais", o "dol-ur-on" cujo consumo tem sido vulgarizado e o codipront (cujas embalagens têm sido reduzidas de modo a permitir o uso em tratamentos de curta duração).
    - O nosso perfil de consumo de drogas legais é pouco significativos (ver relatórios recentes do IDT).
    - a implementação de cuidados paliativos e do tratamento da dor prolongada em ambulatório (areas onde é expectável o consumo mais elevado de analgésicos opiódes) ainda está a dar os primeiros passos.
    - Nessa mesma área, existem medicamentos novos, mais caros, mais seguros (e também com maior rentabilidade para a indústria e profissionais-satélite)
    - a oferta de consultas e cuidados médicos é ainda muito inferior à procura, o que não permite uma massificação do fenómeno. por muito que o rácio oferta/procura de farmácias tenha aumentado, a limitação da prescrição pelo médico e o controlo estricto de SPE pelo Infarmed, foca uma eventual causa na prescrição.
    - A generalização da prescrição electrónica, por muito que ainda não possibilite o controlo "eficaz" da prescrição, é um meio de rastreablidade. Em caso de suspeita, possibilita a comprovação de prescrições em excesso ou fraudes.

    Agora, se me pergunta, que aqui em PT se abusa de lexotans e afins e que se cura muitas maleitas com dol-ur-ons e dolvirans como se de homeopatia se tratasse, concordo e dever-se-ia reflectir mais sobre isso, como julgo que propõe ao advertir-nos para esta notícia.
    Na minha opinião pessoal, tem é de, nesta altura de crise, se ter muito cuidado com a abordagem a ser feita. Proibicionismos radicais, na minha opinião, não serão de todo eficazes e só darão azo a contestação e visibilidade a problemas que não os que se pretende focar.

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  2. Excelente intervenção Helena.
    O meu post vai no sentido de não sabermos nem nos preocuparmos em saber a extensão do problema no país. Por cá muitas vezes fala-se e trata-se de medicamentos como quem trata de batatas.
    Muito obrigado pelo comentário.

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  3. Ema Paulino:
    «Tal como no caso de Marilyn Monroe ou mais de Michael Jackson, também o falecimento de Whitney Houston se deveu provavelmente ao uso indevido e abusivo de medicamentos.

    Uma morte é sempre um facto que nos interpela e nos faz pensar a uma profundidade diferente da comum. Há sempre algo de trágico em qualquer fim. Mas quando se trata de alguém que de forma direta ou indireta contribuiu para tornar a vida de muitas pessoas numa experiência mais rica, então é tempo de especial ponderação. Inevitavelmente, procura-se de imediato um culpado. Por vezes, chega-se a agir como se só conseguisse chorar depois da vingança assegurada.

    Esta semana o mundo foi mais uma vez confrontado com a morte prematura de um ser humano de exceção. Tal como nos casos de Marilyn Monroe e Elvis Presley, ou mais recentemente de Michael Jackson e Heath Ledger, também o falecimento de Whitney Houston se deveu muito provavelmente ao uso indevido e abusivo de medicamentos.

    De facto, é cada vez mais evidente que os medicamentos obtidos na cadeia legal de distribuição, depois de prescritos por um médico, se podem revelar tão fatais quanto as drogas obtidas no submundo da ilegalidade. Afinal, a diferença entre um medicamento e uma qualquer droga não estará tanto na substância em si, mas mais no uso que se faz dela. A fronteira é ténue, um exemplo é o que decorre do facto de serem cada vez mais os estados dos EUA a legalizar a utilização de marijuana para fins terapêuticos.

    As substâncias-ativas utilizadas terapeuticamente como analgésicos, sedativos, ansiolíticos, anti-depressivos, entre outros, têm em si um potencial de abuso diretamente ligado às próprias patologias para as quais estão indicadas e, portanto, torna-se particularmente difícil identificar atempadamente os doentes e situações de risco. A tolerância à dor e aos demais desconfortos, bem como a forma como se gerem os mesmos em casos mais críticos de agravamento dos sintomas, criam um terreno extremamente escorregadio onde os cenários possíveis são difíceis de antecipar e prevenir. Por estas razões, e exceptuando os casos como os de Michael Jackson em que a administração do medicamento foi alegadamente supervisionada pelo médico, parece vã a opção de culpabilizar o prescritor ou qualquer outro profissional de saúde por uma opção que parece ter sido do doente.

    ... http://www.ionline.pt/opiniao/procura-culpado-nos-absolvermos »

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  4. Caro Peliteiro,
    Julgo que até nos preocupamos. Muitos relatórios apontam o nosso excesso de consumo de antidepressivos e ansiolíticos. E nós no fundo, até sabemos disto. A identificação do problema existe. Faz-se é muito pouco a partir daí.
    Ao nível prático, há a questão de como gerir a dependência do ansiolítico por parte do utente, que não é fácil.
    Negar a dispensa de um ansiolítico a um utente que não pretende tratar da sua dependência é empurrá-lo para o incerto (outras farmácias onde sem a restrição do pudor, poderá consumir sem o controlo do ambiente que o rodeie). Há ainda o risco maior, perder um cliente fidelizado, o que nos dias de crise de hoje é fatal.
    Mas concordo consigo, neste aspecto, a maioria de nós, prefere ficar inacto ao risco, não reage deixando o tema no batatal.
    O lado positivo é termos uma população que não é tão susceptível a este abuso nos termos a que os EUA chegaram. Não quero dizer que os ansioliticos estejam a ser consumidos correctamente. O que não existe é o fenomeno de consumo para o propósito de droga diversão. Para efeitos de diversão temos o consumo de drogas ilegais despenalizado, consumo este, que é de acesso fácil e a custos não exorbitantes (têm descido muito nos últimos anos). E isto faz com que não haja o incentivo aos jovens de irem aos armários dos avôs procurar algo que lhe possa satisfazer. Esta dinâmica tem muito a ver com as lógicas de mercado. O nosso mercado centraliza-se claramente no hash e na cocaina (tem havido uma quebra no consumo da heroina). As rotas passam por aqui, e dos que consomem, quer-se garantir o financiamento do consumo pelo trafico local, e os que traficam, garantem fiabilidade das rotas pelos que consomem e daí se sobrevive no negócio. Há um pequeno surgimento das drogas "legais" sintéticas mascaradas de suplementos para animais, sendo a indústria química chinesa um grande player na produção, devido ao sucesso destas drogas nos países do norte da Europa. E estas tem tido um papel dominante na venda "online" de drogas.
    O recurso aos estupefacientes vendidos em farmácia, tem sido muito pouco expressivo e é na gíria, uma solução de recurso. O abuso de anfetaminas é inexistente e de modiodal, curiosamente, nem tem expressão. Julgo, que por isso, não se corre o risco de descambarmos numa situação idêntica ao dos EUA, em que, até o Dr. House é viciado em vycodin.
    Preocupo-me muito mais com o tráfico de esteróides, que envolve redes muito bem organizadas, muitas vezes coberta pelas autoridades locais que também os consomem, lucros muito elevados, sanitização social (Nos ginásios, é saudável ter um bícepe de de 60 cm diâmetro, na casa dos segredos falou-se abertamente do assunto e ao que parece, não havia moço que não tivesse tomado) e uma ambivalência comercio local/consumo online difícil de rastrear. Existem receitas estritas de testovirons e Decadurabulins? e receitas triplas de duas caixas de arimidexs ou provirons passadas a mancebos de 18 anos, quem as controla? E isto é a ponta de um iceberg.

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  5. Cara Helena, concordo com tudo menos com «Julgo que até nos preocupamos. Muitos relatórios apontam o nosso excesso de consumo de antidepressivos e ansiolíticos.»
    Julgo que nos limitamos a contar quantas embalagens são consumidas, mas não há estudos sobre a doença iatrogénica, suas causas e modos de prevenção.
    O tráfico (em sentido lato) de estrogénios, e de antibióticos, são realmente preocupantes.

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