Comendador Sá Peliteiro
Póvoa, 18/05/2005
Meu caro José Sócrates
Serve a presente para te dar conta de uma ideia que salvará a face do teu governo no que concerne às Scut.
Sabes bem, meu caro Sócrates, que o berbicacho em que se meteram, vocês os socialistas, é de difícil solução. Por um lado, calcularás que o financiamento para a coisa não é leve; por outro lado, lá com a Vossa mania da regionalização, dos custos da interioridade e doutras larachas que copiam do nosso amigo comum Alberto João, não fica bem, agora, dar o dito por não dito. Não que isso seja novidade em Governo algum. Os paisanos que votam até já estão habituados e respingam durante uns dias, enquanto que os jornaleiros deitam umas achas para a fogueira, mas depressa se calam e esquecem. É o que vos vale, a vocês políticos, é esta falta de memória colectiva. Enfim, vamos ao que interessa.
Sendo então um problema bicudo, não podia deixar de te agraciar com a minha prestimosa e desinteressada opinião (depois tenho ali uns terrenecos, lá para cima, que queria viabilizar para construção de um resort de luxo, com uns quantos arbustos a abater, coisas sem importância, uns medronheiros, uns azevinhos, uns azereiros, mas depois falamos pessoalmente, sem telemóveis nem escritos).
Ora, pensando bem, o que poderemos fazer para arranjar um modelo de financiamento para as infra-estruturas rodoviárias que não seja a introdução de portagens?
A ideia é simples. Li outro dia num blogue que o desígnio nacional é ser um imenso casino de Far West. O gajo que escreveu isso é um trengo, bem se vê, mas assim como assim, fiquei a matutar nisso. E quem guarda sempre tem. Guardei a ideia e quando me dispus a livrar-te desta encrenca associei que dois mais dois são quatro. Brilhante.
A ideia reparte-se em duas partes, para simplificar a exposição, no seguimento de um espírito que bebe na mais pura dedução cartesiana.
Uma é, então, aquela torpe trenguice dos casinos, outra é toda minha. Já reparaste, com certeza, de que hoje em dia a atenção vale muito dinheiro. Vamos a um urinol e lá temos uma cartaz a dizer para fazermos isto, ou comprarmos aquilo. Abrimos uma página da net, sobretudo se for uma daquelas XXX e aparecem dezenas de janelinhas a que chamam pop-ups ou coisa parecida a tentar-nos com uma jogatana qualquer ou a dizer que ganhamos um prémio por sermos o visitante 10 milhões.
Juntando então dois e dois temos a solução para o financiamento para as ditas Scut e outras estradas que queiras oferendar ao povo. Concretizando:
Indo do Porto para Viana, logo ali a seguir à Exponor, começamos a meter uns cartazes enormes a dizer: Visite o fantástico Casino; Não deixe de temperar forças no magnífico motel; Massagens tailandesas a 5 km; Mé ligue, vai; Pare no templo da Igreja de Maná; Corridas de cavalos a 200 m; Novidades é no Continente; Tratamento da depressão por método inovador de inalação; Este Casino é melhor que o outro...
Ou seja, ganha-se a dois carrinhos, primeiro ganha-se uma fortuna em cartazes publicitários, depois, expropriadas as terras à volta das Scut, concessionam-se a peso de ouro a empresários que teriam algumas dificuldades com vizinhanças urbanas. Melhor, ganha-se a quatro carrinhos: olha os empregos que se geram e olha a imagem de espanto e admiração dos turistas quando depararem com o desenvolvimento e a modernidade e a abertura que se plasma nas nossas zonas, outrora, pouco desenvolvidas.
Um sucesso, um salto para o futuro de proporções gigantescas. Tens é que dizer aos tipos do SEF para fecharem os olhos à entrada de Brasileiras...
Como vês, meu caro Sócrates, nada que não se resolva, só a morte não tem solução. Todavia, podes desde já anunciar umas novas estradas, talvez uma auto-estrada de Famalicão até Barcelos, justifica-se, porque não, ajudava aos problemas de desemprego do Vale do Ave... Vais ver que assim dás um impulso precioso à nossa economia, coitados dos empreiteiros de obras públicas, já não trocam de Mercedes há seis meses, tudo vai voltar a ser como dantes, antes dessas tangas a que nos obrigam volta e meia a usar.
Tão entusiasmado estou, meu estimado Sócrates, que vou agora matutar numa ideia para resolver o teu problema do défice. 2 % não ficava nada mal, hem?...
Há. E não te esqueças do meu campo de golfe. Depois falamos.
Do teu prezado amigo, com consideração.