Há pouco mais de uma ano escrevi sobre os Peliteiros, uma família rara em Portugal mas dispersa por quase toda a Europa.
Entretanto recebi algumas contribuições para o tema, quer de familiares, quer de homónimos, e sobretudo de pessoas com ligações à
Association Pelletier.
Fiquei assim a saber que os Peliteiros de que Alexandre Herculano fala n'O Monge de Cister, desfilando em Lisboa com o seu brasão, um gato de botas, podiam não ser os mesmos que os Peleiros. Os Peliteiros, ou pelo menos alguns, seriam os indivíduos que teriam como ofício o tratamento de peles, mas não de animais mortos como os Peleiros. Estes Peliteiros tratariam antes as peles macias das damas da corte, raínhas e Princesas. Seriam um misto de esteticistas, farmacêuticos e dermatologistas.
Na época de D. João V, haveria uma família de Peliteiros que vendia uma loção, às nobres e burguesas da época, à razão de 1L por 1Kg de ouro! E se retrocedermos à Alexandria de Cleópatra, os Peliteiros da época teriam um estatuto equivalente ao de sacerdotes, uma casta com um papel altamente privilegiado.
Então porque terá esta profissão, de estrutura familiar como tantas outras, um número de elementos tão reduzido?
Nem tudo é fácil nesta vida. Nunca o foi! O problema, a chave da solução deste mistério é que ser Peliteiro é muito ingrato, difícil, duro, muito arriscado...
Segundo um mail que recebi de um provável pico-parente Francês, pode deduzir-se que os Peliteiros morreriam quase todos cedo, devido a uma particularidade, a um estigma profissional.
No âmbito do seu exercício profissional, os Peliteiros conviveriam, de uma forma mais ou menos íntima, com as mais belas e cobiçadas donzelas. Ora do acto de seleccionar e preparar a melhor forma de embelezar uma pele aveludada ao dever de aplicar afincada mas delicadamente os unguentos, cataplasmas e esfregaduras, vai a distância de um pequeno passo. E mais isto mais aquilo, mais cócega menos cócega, eis que chega o marido ciumento, o amante desconsiderado, o invejoso despeitado, e zás! Era uma vez um Peliteiro!
Ilustrando esta saga familiar apresenta-se o exemplo de um Peliteiro, também pintor e artista ilustre, que mesmo tendo morrido de uma forma vã, perpetua o nosso génio no museu do Louvre:
Esse virtuoso, de que se desconhece o nome próprio, era um famoso Peliteiro na corte de Henrique IV, tendo a seu cargo a árdua tarefa de cuidar das mulheres do Rei e das demais damas da corte. Foi o primeiro a usar placentas humanas como matéria prima primordial nas suas formulações. Seria um elegante cortesão, gozando do máximo respeito da nobreza influente da época e da máxima admiração do séquito feminino. Contemporâneo de Shakespeare, primeiro divulgador da sua obra em França, era imensamente admirado quando declamava os seus poemas, traduzidos por ele próprio.
Gabrielle d'Estrée (tela acima) o maior amor da vida de Henrique, e sua irmã, foram umas das várias que se apaixonaram pelo garboso Peliteiro. E a chama da sensualidade inflamou as alcovas dos palácios, exalando um progressivo despudor, um inusitado descuido, um clamor descarado. Falava-se, nos corredores, de orgias fulgurosas, de banhos de ambrósia, festejos mirabolantes, exaltação dos sentidos, libidos exacerbados.
Embora gozasse da protecção do clero, já que foi através da sua influência indirecta, por via da sua amante real, que Henrique IV proferiu a famosa frase "Paris vaut bien une messe", renunciando definitivamente ao protestantismo; embora gozasse da protecção do rei (!) cujo amor pela bela Gabrielle fosse inamovível, mesmo quando sujeito às fortes pressões dos seus conselheiros, Peliteiro e Gabrielle morrem misteriosamente, ele, supostamente de peste, ela, supostamente, durante um parto. Segundo reza a lenda, os algozes não tiveram misericórdia do Peliteiro e, selvaticamente, castraram-no, lenta e impiedosamente, após o que o esquartejaram e lançaram ao Sena.
César, duque de Vêndome, tido como filho bastardo de Henrique, mas verdadeiramente filho do Peliteiro, teve uma vida atribulada, tal como o pai e todos os Peliteiros. Atentou contra o cardeal Richelieu, foi depois acusado de conspiração, fugindo para Inglaterra e depois para o norte de Portugal, onde viria a deixar lauta descendência.
Vidas difíceis.
Enfim, o nome é raro mas os genes são prolixos!