Será azar, mas sempre que compro vinhos do produtor, purinhos, caseiros, acabo por ter desilusões.
Falo de vinhos verdes, Ponte de Lima, Monção, Famalicão, Barcelos...
Quando se provam são óptimos, e a referência à pureza na sua produção funciona como uma atracção fatal; depois avinagram, amarelecem, azeitam, perdem gás, azedam, ganham depósito, cristais, e servem apenas para temperos, vinagre, ou, quanto muito, para fazer traçadinhos.
Aliás, em muitos casos, tenho sérias dúvidas quanto à dita pureza dos processos de produção. Pelo menos nos vinhos comerciais, o vinho é "martelado" mas é bem martelado.
Quase todos os anos me acontece isto. Já era tempo de aprender.
Hoje, ao jantar, abri uma garrafa de uma "especialidade", branco, de Ponte de Lima, adamado, fresquinho, para saborear, calmamente, depois de um dia de calor. Estava ácido, perdeu características organolépticas e óptimo para meter num jarro, com umas migalhas de pão, e daqui a uns dias usar numa salada de alface com azeitonas negras.
Talvez o melhor vinho seja aquele que é feito, até, com algumas uvas.
Está na moda saber de vinhos.
Qualquer copinho de leite chega a um restaurante, pega na carta de vinhos e debita sérias afirmações e usa terminologia apropriada como taninos, corpo, bouquet, monovarietais, nomes de quintas, nomes de enólogos, trajadura, loureiro, arinto.
Depois cheiram a prova, mastigam uma alíquota e... mandam sempre servir, está sempre bom, mesmo quando só pela cor se vê que está mais que passado.
O problema é que quando é um jantar de grupo, com a conta a dividir, esses especialistas escolhem - como os emigrantes ricos - os mais caros da lista. Não deixa de ser um critério...
Cá em casa, sirvo sempre o vinho sem rótulo, decantado, e quase sempre tenho um jantar divertido, calo-me que nem um rato, e eles perguntam:
- É um Alentejo?
- Não, eu sou regionalista, é um Douro...
Garanto que 90% dos bebedores não distingue um Alentejo de um Douro.
Não é por mal, nem por má criação, faço isso a quase toda gente. É apenas pedagógico, assim as pessoas aprendem a apreciar um vinho sem a ideia pré-concebida da marca, do valor de mercado, e, além disso, os sentidos e a curiosidade são despertados, os candidatos a apreciadores de vinho dão mais atenção e apreciam melhor aquilo que bebem.
Porque serão os vinhos tão caros?
Não é pelo preço a que saem do lavrador, com certeza!
E nos restaurantes face a preços tão especulados - os restaurantes deviam ganhar dinheiro a vender comida e não bebida - acontece não poucas vezes que os comensais acabam a beber cerveja - e lá se vai o negócio! - mesmo quando esta bebida é francamente desadequada.
O mesmo nos bares. É raríssimo encontrar alguém que beba um "cupinho" do sagrado néctar. Também é raríssimo encontrar sítios onde se possa pedir.
Há uns tempos parei no meio do Monte de Sª Isabel, em Terras do Bouro, para lanchar e vi lá uns autóctones a beber umas malgas de tinto com lágrima. Que bem me soube!
Beber cerveja é bárbaro lá diz a História. Beber vinho dá trabalho a muitos Portugueses; agora além de Espanhóis e Franceses, também a Australianos, Chilenos, Californianos, e até Brasileiros.
Bebam vinho, mas não demais, porque se não nunca mais se calam ou param de escrever nos blogues.
Juro que não é o caso!