Os temas que me surgem para escrever neste pasquim são como as cerejas: uns arrastam os outros. Ontem, ao escrever sobre uma viagem e sobre Portugueses, ocorreu-me escrever sobre os descobrimentos. É assim:
Um dia estava no aeroporto Charles de Gaulle quando de repente aparece uma mala enorme abandonada numa das salas de check-in.
Os polícias de serviço colocaram-se perto da mala e começaram a pedir às pessoas para se afastarem. De repente aparecem de umas portas disfarçadas nas paredes um grande número de militares ou paramilitares ou lá o que eram, aramados até aos dentes, com umas metralhadoras pequeninas, tipo Uzi, sem coronha. O clima adensou-se. E os militares começaram a isolar o local com umas fitas plásticas. Havia muita gente na sala e foi preciso começar a ganhar terreno aumentando a área, progressivamente, em círculos cada vez maiores.
As Francesinhas corriam coradas e assustadas lançando gritinhos muito coquettes; os alemães, desconfiados a olhar por cima do ombro, afastavam-se aos tropeções grunhindo sons indistintos; os Ingleses, aprumados e sem perder o tom, empurravam mas sempre com um impecável "sory" e suspiravam "ó mai gode"; os Italianos "mamma mia", etc, etc.
Havia, no entanto um grupo de irredutíveis, que já estava a começar a irritar os polícias. Quase que tinham que ser empurrados. De pescoço esticado e olhos arregalados, colocados junto das fitas, insistiam em ser os últimos a fugir. A área isolada era na altura grande mas não o suficiente para proteger do impacto de um engenho explosivo.
Algumas espécies de macacos, mesmo avisados há gerações e gerações, que podem ser estrangulados e deglutidos por umas giboias gigantes que aparecem nas árvores, ocultas entre a folhagem, não resistem à curiosidade fatal de se aproximarem para melhor ver uns olhos que brilham ou uns tons de cor deslizantes e diferente.
Alguns condutores em tarde de Domingo não hexitam em parar a viatura no meio da estrada para ver outra viatura que parou para ver um ciclista que estava a mudar o pneu furado e assim sucessivamente até o choque em cadeia final.
É claro que eu era um dos pacóvios que estava no limite da linha para ver o que aquilo dava. Bem sei que não devia estar, mas eu sabia que aquilo seria interessante, quanto mais não fosse para escrever num blog, daqui a uns tempos.
Uma das principais razões para os Portugueses terem dado tantos mundos ao mundo foi a sua curiosidade. Os angariadores de tripulações chegavam às cidades e aldeias e diziam aos potenciais marinheiros: olha que vamos fazer uma expedição até uma terra que ninguém sabe muito bem onde fica, enfrentando perigos inimagináveis, mas dizem que, há árvores que dão patacas, há mulheres que não usam soutien, há animais do tamanho de casas, há pepitas do tamanho de pedras, há pássaros que falam, e coisas do arco da velha. Os angariados faziam uns cálculos estatísticos, que tinham como resultado: probabilidade de morrer - 60%; de ficar estropiado - 30%; de ficar com escorbuto - 5%; de ficar com uma mulher sem soutien e sem buço - 2%; de ficar com mais que uma - 1%; de ficar rico e nunca mais trabalhar - 1%; de ver coisas formidáveis para contar aos netos e na tasca da aldeia - 1%. E iam!
A sala do aeroporto estava quase vazia - só lá restavam pouco mais que uma centena de mirones, que os polícias não conseguiam afastar - quando aparece um grandalhão, gordo, louro, a beber Coca-Cola e a apertar a braguilha, dirigindo-se para a mala. levou logo um piparote de um polícia, como nos filmes, que o estendeu no chão , lhe aplicou uma chave e o algemou. "Ai éme americane" gritava repetidamente o brutamontes. Mas mesmo assim lá foi algemado, com a mala, e escoltado por um pelotão de polícias.
A sala foi liberta e rapidamente tudo voltou à normalidade.
Só no avião é que percebi quem eram os irredutíveis. Era um voo Paris-Porto e o avião estava cheio de Portugas, muitos emigrantes. Eram todos caras conhecidas, eram os meus parceiros curiosos.