Um dos momentos mais difíceis da actividade farmacêutica é recusar uma venda.
Nas farmácias pratica-se, frequentemente, um acção que é completamente contrária às regras do mercado: recusam-se vendas.
E isso custa-me. Não, não é por causa do dinheiro que se deixa de ganhar (bom, isso também me custa, claro). É, sobretudo, porque as pessoas, imbuídas de um espírito capitalista, não compreendem que é, essencialmente, para bem delas. Às vezes tornam-se mesmo agressivas ou no mínimo agrestes.
- Portanto, queria um creme hidratante, um emoliente, um anti-rugas, uma aspirina, portanto, um champô, e um Klacid 500...
- Um Klacid? E a receita?
- Ha, foi o que o médico me receitou da última vez...
- Pois é, mas vai ter que lho receitar outra vez...
- Ó pá (o pá é característico de indivíduos que andaram lá pelo MES, nos idos das amplas liberdades), diz o toxicopendente, da porta, com voz grossa, para ver se assusta, tens "Sirenal"?
- Vai chamar pá ó... à tua mãe, digo eu ainda com voz mais grossa.
- Quando estiveres de urgência á noite, vou partir esta porta toda...
- Vai lá vai...
- Se faz favor queria um "Coloraucil" colírio para o meu bébé.
- Mas...
- Não me diga que não me vende, tem medo? Neste país é só incompetentes, se calhar nem sabe o que é. É isso? Olhe que eu tenho uma tia enfermeira e o pai da minha sogra tinha uma farmácia, sei bem o que estou a fazer.
- Mas...
Além disso quando ele nasceu puseram nos olhos de todas as criancinhas da enfermaria, a eito, portanto não pode ser uma coisa assim tão esquisita. Não vende, não faz mal vou a outra, nunca mais venho aqui!
- Mas...
- Quero uma "pírula" do dia depois. É para uma amiga minha...
- Ha, vai usar pela primeira vez?
- Não, já usei umas quatro vezes.
- E porque não vai - a sua amiga - à maternidade, que tem uma consulta...
- Ela não tem tempo, está em exames! E já está habituada.
- Muito bem, mas repare que...
- Ai sermões a esta hora...
- Ora bem, tenho uma amiga que emagreceu 20 Kg em duas semanas com estes comprimidos. Tem?
- Tenho, mas a sua amiga tomou isso porquê?
- Isso não sei nem interessa, mas se emagrece também quero, parece que lho receitaram no Magalhães "de" Lemos.
- Olhe que esse medicamento não foi feito para isso, é muito complexo, necessita de acompanhamento, é um medicamento novo...
- Quero lá saber disso, tenho um casamento no Sábado e o vestido não me serve!
- Tenho a minha filha doente e o pediatra não pode atender, tem o consultório cheio e disse para lhe dar "Omentim".
- Será Augmentin? Qual deles? Que dose? Em que horário?
- Sei lá, ligue-lhe se quiser, senão dê-me um qualquer que eu depois leio o papelinho.
- Ó Chefe, já que não me vende "Sirenal" venda-me um botijinha de gás.
- Aqui não há chefes, nem botijinhas, vai lá vai.
- Tenho aqui um "obessesso" e quero um "Moca-dente".
- "Moca-dente". Não conheço, desculpe, porque não vai ao seu dentista?
- Sempre que lá vou dá-me o "Moca-dente", para que é que lá vou largar 50 "ouros"?
- Será Moxadent?
- Eu é que trato as minhas doenças, comprei uma enciclopédia de saúde e nunca mais dei dinheiro a ganhar nem aos médicos nem aos farmacêuticos, tudo com produtos naturais. Mas agora precisava de uns "Briágas", vou a Cuba com uns amigos...
- Não será melhor comprar antes uns preservativos?
- Não, não uso disso...
- Ó "sinhôr", está a ver, fui ali ao Hospital e trago uma receita de "Dormecum", este tem não tem?
- Tenho... Aqui está. Ó homem não pode tomar três de uma só vez, isso é muito forte...
- Três? Vou tomá-los todos! Nem preciso de água, são só 14!
- Ó doutor, estou outra vez com uma "candidinha", dê-me aqueles "ovos" para enfiar à noite...