<$BlogRSDUrl$> Impressões de um Boticário de Província
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Amanita muscaria

Impressões de um Boticário de Província

Desde 2003


domingo, 31 de agosto de 2003

Boa viagem para o meu colega Tito Baião, que cavalgará de Luanda ao Porto, montado na sua BMW RS 1100 GS.
A viagem tem um cariz humanitário, foi efectuada uma campanha de recolha de medicamentos (não é muito correcto do ponto de vista dos procedimentos farmacêuticos de segurança e qualidade, mas enfim) e vão proceder à entrega simbólica das primeiros embalagens.
É mais uma longa viagem deste moto-aventureiro (já fez Porto Macau!), que há-de correr bem, livre de percalços e com muitas histórias para recordar.

Peliteiro,   às  23:20
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Como se classifica um advogado?
Expõe-se uma questão e:
O bom advogado cobra-nos 500 euros e resolve o problema;
O advogado médio cobra-nos 500 euros e, para ganhar tempo para estudar os códigos, manda-nos voltar passada uma semana, com uma montanha de documentos e certidões;
O mau advogado cobra-nos 500 euros, diz uns disparates e indica o tribunal como o único caminho a seguir.

Peliteiro,   às  22:56
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sexta-feira, 29 de agosto de 2003

S. Pedro está, nesta semana, a ensaiar um modelo climático mais adaptado aos anseios dos Portugueses modernos.
Em vez de quatro estações por ano, passará a haver quatro estações por dia. De noite chuva, frio, vento e marés vivas; de dia sol, calor e mar chão.
Esperemos que corra bem e o projecto seja implementado. É mau para a lavoura, mas é bom para o turismo e a malandrice.

Peliteiro,   às  00:35
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quinta-feira, 28 de agosto de 2003

Notícia de última hora:

Governo vai eliminar parasitas da função pública.

Durão afirma: “ Se é consensual que a função pública está infestada de parasitas, há que agir!”
Para o efeito, é sabido que, o ministério da saúde vai fornecer aos funcionários públicos um kit constituído por uma embalagem de genéricos de Pantelmin e de Quitoso.

In “Escrito no escroto”

Peliteiro,   às  23:33
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Já estão nas Farmácias as vacinas da gripe para o Inverno 2003.
É notável como 12 horas após a libertação dos lotes pelo Infarmed, um medicamento se encontra distribuído por todo o território nacional. Existem cerca de 16.000 produtos farmacêuticos diferentes em Portugal, e um doente em qualquer lugar do país, pode a eles aceder num período máximo de 6 horas. No Porto um medicamente urgente é entregue por motos rápidos em 15 a 30 minutos e uma farmácia pode encomendar, se quiser, via correio electrónico, 20 vezes por dia. Fantástico. Já escrevi um artigo sobre as virtudes da distribuição farmacêutica, e julgo que não há nenhum sistema logístico tão perfeito como este.
Em alguns sectores de actividade, Portugal vai mesmo no pelotão da frente. Se tudo na saúde funcionasse com o mesmo nível de eficiência muito bem estaríamos, e não haveria listas de espera.
O segredo está na organização e no trabalho. Os farmacêuticos criaram, há decadas, empresas cooperativas de distribuição (no Norte a Cofanor e a Cooprofar) e assim, sem ajudas de ninguém, conseguiram empreender um modelo de distribuição vital para a assistência medicamentosa do país.

Peliteiro,   às  00:50
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O meu texto "Forza Lazio" teve reacções muito negativas na blogosfera.
Já o esperava. É politicamente incorrecto, não fica bem dizer estas coisas.
Mas é o que sinto, paciência.
E agora, aqui estou eu a beber um "Quinta de Azevedo" fresquinho, satisfeito com a eliminação do Benfica.

Peliteiro,   às  00:49
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quarta-feira, 27 de agosto de 2003





E explico porquê.
Detesto o benfica. Qualquer que seja o clube que enfrente o slb tem a minha preferência, seja Português, Espanhol, Russo ou Marciano. Sem hipocrisias!

E muito embora nestas coisas de futebol não haja grandes racionalismos, procurando nas minhas memórias - e sabendo que muito antes de ser adepto da Académica e do FCP, já era antibenfiquista – julgo que a minha antipatia se relaciona com o pecado da vaidade praticado durante décadas pelos adeptos, jogadores e dirigentes do ex-glorioso.
Lembro-me que no fim da década de 60, tinha eu uns 6 ou 7 anos, o meu pai me levou a ver um Guimarães – benfica; ora eu coleccionava autógrafos e no fim do jogo abeirámo-nos do autocarro dos jogadores vermelhos; chegaram as super-estrelas acompanhados de uns gorilas, empurrando os pategos com maus modos, exibindo uma distância, uma sobranceria, uma ostentação, uma magnificiência que me enojou.

Hoje tudo acabou, o slb não passa de uma velha dama, doente e falida; em breve, desaparecerá. Mas o asco permanece, portanto: forza Lazio.

Peliteiro,   às  00:56
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Já várias vezes imaginei objectos, utensílos, coisas que alguém devia inventar e comercializar e passados uns tempos constatei que eles de facto existiam. Não que estivesse a inventar nada, antes registava uma necessidade de consumidor, concerteza comum a muitos outros milhões de terráqueos.
Exemplos: Um telemóvel com gravador de voz - hoje há inumeros modelos com essa funcionalidade. Veleiro insubmergível, barato, de navegação e manutenção fáceis - vi na TV5 a semana passada um misto de prancha de windsurf com laser, aí com 5 metros, com o interior transformado em cabine completamente estanque, com espaço para dormir, arrumação de víveres e telecomunicações. Relógio multifunções - Tissot Touch. Uma televisão que funcione como ecran de PC - a Sony tinha um e a Samsung parece que agora também tem. Um sistema eólico doméstico para quem mora em zonas ventosas - não conheço nenhum à venda em Portugal. Um cilindro termoacumulador que quando a água quente (ou a aquecida em regime nocturno económico) acaba se transforma num esquentador a gaz - parece que há, mas nunca encontrei. Um cartão de crédito à prova de roubos e falcatruas, com código pessoal - também não conheço. E etc, etc, podem acrescentar mais na caixa de comentários.
Hoje vi o anúncio de um tubo super-reflector que transporta luz natural do exterior para o interior das construções. Elementar, desde que o tubo seja relativamente fino e aplicável, tipo periscópio multiplicado, e funcione! Quantas vezes entrei num escritório, numa sala, numa loja, numa casa de banho, e pensei: tanto sol lá fora e tanta falta de luz aqui, ou tanto desperdício de energia em iluminação artificial. Uma inovação superinteressante, não sei é quanto custa...

Peliteiro,   às  00:19
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terça-feira, 26 de agosto de 2003





Onde anda o Ferro Rodrigues?



Como ninguém o encontra, ninguém o ouve, e o fim se aproxima penosamente, proponho um concurso em que o objectivo é:

Em que data perderá Ferro Rodrigues a liderança do PS e da oposição?

As respostas podem ser enviadas pelo correio, ou, abaixo, na caixa de mensagens.

Peliteiro,   às  01:29
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segunda-feira, 25 de agosto de 2003





Enquanto estava a ver o "O Resgate do Soldado Ryan" fui-me entretendo a pesquisar sobre a palavra peliteiro.

Peliteiro vem do latim pellis e quer dizer: aquele que trabalha a pele, prepara e vende peles (eu só trato e cuido de peles). Era uma profissão muito comum na idade média. Alexandre Herculano, n'O Monge de Cister (se não me falha a memória) fala dos peliteiros de Lisboa e do seu brasão que era um gato de botas. Em espanhol diz-se peleteiro e em francês pelletier.

Peliteiro é um nome de família muito raro, em Portugal; não lhe sei a origem nem a história, mas é provável que a profissão tenha dado origem ao nome. Os poucos membros que conheço são todos primos ou primos dos meus primos e moram sempre entre o Ave e o Minho.
O mesmo não acontece em Espanha, especialmente na Galiza, e mesmo em França onde existe uma associação de famílias Pelletier- um dos membros mais ilustres eu já conhecia dos livros de farmacologia e farmacognosia e de ter visto uma sua estátua na Farmácia da Sorbonne, é um colega boticário, Pierre-Joseph Pelletier,que em 1820 com o seu assistente Caventou, isolou e preparou uma nova droga, o Quinino, que salvou milhões de pessoas que sofriam de malária, até ao aparecimento da resoquina; também isolou a estricnina que embora inicialmente fosse usada como medicamento (cardiotónico me parece), depressa foi adaptada para outros fins.

Além disso, na pesquisa, encontrei uma cantiga religiosa, editada em baixo, e uma referência ao meu nome, imagine-se, a falar do Viagra ao jornal Expresso ( os motores de busca da net são muito injustos, eu, um homem de ciência, conselheiro da NATO e da CIA para questões relacionadas com guerra biológica, biotoxinas, Antrax, Aspergiloses, etc; consultor da L'Oreal, especialista em fórmulas tópicas com botox; e de vários gigantes farmacêuticos em várias áreas das ciências farmacêuticas, apareço apenas a falar, de Viagra!!! )


Com' é o mund' avondado


Como un peliteiro, que non guardava as festas de Santa Maria,
começou a lavrar no seu dia de março, e travessou-sse-lle a agulla
na garganta que a non podia deitar;
e foi a Santa Maria de Terena e foi logo guarido.

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões,
assi é Santa Maria de graças e de perdões.

Ca sse Deus soffr' ao demo que polos nossos pecados
nos dé coitas e doores e traballos e coidados,
logo quer que por sa Madre sejan todos perdõados
por creenças, por jajus, por rogos, por orações.

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões...

Poren direi un miragre que fez por un peliteiro
que morava na fronteira en un castelo guerreiro
que Burgos éste chamado, e demais está fronteiro
de Xerez de Badallouce, u soen andar ladrões.

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões...

E en aqueste castelo o peliteiro morava,
que da Madre de Deus santa nunca as festas guardava,
e pola festa de Março, u el sas peles lavrava,
e do mal que ll' end' avo, por Deus, oyde, varões:

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões...

Ca u meteu a agulla na boqu' e enderençando
as peles pera lavra-las, non catou al senon quando
a trociu, e na garganta se lle foi atravessando;
ca os que o demo serven an del taes galardões.

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões...

E daquesta guisa seve muitos dias que deita-la
per nulla ren non podia nen outrossi traspassa-la;
demais inchou-ll' a garganta, assi que perdeu a fala,
e tornou-ll' o rosto negro muito mais que os carvões.

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões...

E pois el parou [y] mentes e viu que assi morria,
e fisica que fezesse nulla prol non lle fazia,
mandou-sse levar tan toste dereit' a Santa Maria
de Terena, prometendo- lle sas offertas e dões.

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões...

E quando foi na eigreja, ant' o altar o deitaron
e log' a Santa Maria muito por ele rogaron;
e el chorand' e gemendo dormeceu, e non cataron
senon quando ll' a agulla sayu sen grandes mixões

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões...

Que fezesse por saca-la; ca u jazia dormindo,
a Virgen mui groriosa lla fez deitar, e tossindo,
envolta en ha peça de carn'. E esto oyndo
as gentes que y estavan deron grandes beições

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões...

Aa beita Reynna, que en ceo e en terra
acorre aos coitados e perdõa a quen ll' erra,
e pera aver mercee nunca a ssa porta serra,
e que os guarda do dem' e de sas maas tentações.

Com' é o mund' avondado de maes e d' ocajões...

Peliteiro,   às  01:17
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sexta-feira, 22 de agosto de 2003


Este Ramos Horta é que me saiu cá um grande Nobel da Paz...
A violência gera sempre violência, meu caro.
Ainda por cima a defender a pena de morte, mas só para terroristas, como se isso tivesse algum efeito dissuasor. Só faltava defender a pena de morte mas, apenas, para terroristas suicidas, homens bombas, kamikazes e aparentados.

Peliteiro,   às  00:38
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Como dizia a musiquinha: eu gosto é do Verão…
Mesmo estando a trabalhar, no Verão a vida é mais leve, as pessoas andam mais bem dispostas, os amigos estão de férias, muita gente faz anos, há muitas festas e jantaradas, ninguém vê os telejornais, enfim, deve ser parecido com morar no Brasil.
O pior é o trânsito. Hordas de domingueiros que estiveram em hibernação, despertam e infernizam-nos a vida. Depois há sempre obras nas estradas; ele é a repavimentação da IC1 em Vila do Conde, ele é o novo nó de Francos… Nas bichas é que se pode mirar bem os domingueiros: carro limpinho, autocolantes de aviso de crianças a bordo, o clássico das penélopes ( o que leva tanta gente a colar penélopes nas traseiras da viatura, será que há um significado secreto? ), no retrovisor um terço ou para os mais modernaços um CD, e eles com um ar sério - ou a discutir com a patroa e a dar lambadas nos cachopos -, solene, a ouvir a “Bola Branca” da Rádio Renascença ( Eu ouço todos os dias a “Bancada Central” na TSF, quando venho para casa; boa noite Sr. Fernando Correia – boa noite Sr. Lázaro - os preços dos bilhetes de futebol estão muito caros, a ANAF, associação nacional de adeptos de futebol já tem estatutos? E sede? Vamos mas é beber uns copos aí num tasco qualquer. Porque é que um jogador de ténis atinge o seu máximo em adolescente e o 3º guarda redes do fêquêpê não pode ser seleccionável? ) empertigados, cheios de importância.
E depois não acontece nada, os políticos e jornalistas estão de férias, os funcionários públicos também ( com excepção dos polícias, garbosos, com ar de quem realmente é dono do mundo ), e o país parece que rola melhor. Donde se prova que políticos, jornalistas e funcionários públicos não servem para nada, só atrapalham. Já os Padres não; fazem-se imensos casamentos, baptizados e missas para os emigrantes. Então, se o consumo de papel é um bom indicador da evolução da economia, um padre atarefado, espavorido, a limpar o suor do cachaço com um lenço enrodilhado, a arfar da angina de peito, é sinal da boa disposição de uma comunidade.
O Inverno também tem coisas boas, a lareira, assar chouriças em álcool, vender montes de antibióticos, dormir com cobertores quentinhos e o temporal a bater nas janelas, beber um Douro tinto com cozido à portuguesa, poder engordar que não se nota, e etc e etc. Mas ficamos mais introspectivos, as mulheres não parecem tão bonitas, e o mundo fica mais sério e cinzento.
Quando me reformar vou passar o Inverno para o Brasil.


Peliteiro,   às  00:27
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terça-feira, 19 de agosto de 2003


Ao utilizar a palavra coisas no texto anterior, lembrei-me da "coisa", coisa que os estudantes de Direito se preocupavam muito. Era um conceito complexo e difícil; julgo que se aprendia em Direitos Reais, o maior cadeirão do curso, com regência do falecido Prof. Orlando de Carvalho, uma figura imensa de Coimbra.

Então lembrei-me do meu colega de quarto, transmontano típico que trocou o seminário em Fátima pelo curso de Direito em Coimbra. Naquelas madrugadas que antecediam os exames - encharcados em suores frios, com o estômago contraído como uma noz, as nádegas dormentes e as conjuntivas raiadas pelo cansaço - dizia com muita graça e desespero (ao mesmo tempo que batia uma palmada fortíssima na testa):
"Para que é que eu saí do seminário?!!!"

Agora, às vezes também digo: "Para que é que eu saí da função pública?!!!"

Peliteiro,   às  00:54
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Gosto muito de escrever, neste meu pasquim, sobre coisas que me agradam especialmente, assim a modos de recomendação. Não acho que me esteja a transformar num velhinho querido, daqueles que passam a vida a dar conselhos, mesmo a quem não os pede nem está nada interessado neles. É antes uma forma de partilhar as minhas experiências com a malta, com os amigalhaços, pode ser que se retire algo de útil. Um dia destes abro a sessão do mal dizer, que também deve ser interessante.

Vou, então, recomendar dois livros. Por acaso nem acabei de os ler ainda. Tenho o péssimo hábito de ler uns quantos ao mesmo tempo; às vezes nem os acabo; que me lembre ando a ler aí uns cinco; mas tropeço num livro interessante e não resisto: deixo a leitura incompleta e passo ao seguinte. Se fosse assim com as mulheres já ia aí no oitavo casamento!

O primeiro é "Uma Deusa na bruma" de João Aguiar. Um romance histórico, desenrolado no século II a.c., na Calécia, territórios de riba Douro. O romance não tem nada de especial - diga-se - mas o facto de nos remeter para os nossos ancestrais, os seus modos de vida, as suas angústias e medos, em terras que nós hoje continuamos a pisar, dá um encanto particular à história.

O segundo é "Uma mente brilhante", biografia de John Nash, matemático brilhante nascido nos anos 20. Aparentemente parece uma imensidão, quase seiscentas páginas a falar na vida de um matemático; mas lê-se muito bem, quando se dá conta já estamos a meio, e por aí adiante. Fala sobre o mundo académico, fervilhante, na primeira metade do século, nos states; fala da matemática como mãe de todas as ciências e das suas ligações à física, à economia, astronomia, à energia nuclear e à bomba atómica e ao desenvolvimento e estratégia militar. Gostava de aprender sobre teoria dos jogos, pareceu-me fascinante. Mas acima de tudo fez-me pensar naquilo que distingue um génio de alguém que é simplesmente muito bom. Há ali um salto, um patamar diferente; um indivíduo muito bom é simplesmente melhor que um bom, e este melhor que um normal; um génio não é avaliável, é extraordinário, é incomensurável. Ou antes, deve ser, porque nunca privei com nenhum; mas gostava. E será que um génio tem que ser sempre maluco? O Nash sempre teve um comportamento estranho, desde muito jovem, e depois passou por grandes crises de esquizofrenia. Tema interessante.

Peliteiro,   às  00:04
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segunda-feira, 18 de agosto de 2003


Chegado ao mundo real, só se ouve falar dos incêndios.
Para completar o meu blogo-espanto de 5 de Agosto e a partir de números que consegui captar, fica o registo:

1- A área ardida em Portugal é de cerca de 200 mil hectares; e em Espanha de 40 mil !!!!
2- Só no Distrito da Guarda arderam quase tantas árvores como em toda a Espanha !!!!
3- Os incêndios florestais em Portugal perfazem cerca de 40% da área total que foi queimada na Europa do Sul !!!!

Blá blá práqui, blá blá práli, cada vez mais me convenço de que isto tudo põe a nu um país desorganizado, desleixado e vicioso. E a culpa morre sempre solteira. E não rolam cabeças. E quem paga somos todos nós. E as vítimas mais necessitadas vão receber umas míseras esmolas, claro que só daqui uns meses, para entretanto se manterem sossegados e calados com a esperança de que a cenoura não desapareça.

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Peliteiro,   às  23:32
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sexta-feira, 8 de agosto de 2003

Agora vou estar sem ligar esta embirrenta máquina de escrever com fios durante uns dias. Por isso, boas férias!

Peliteiro,   às  01:37
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O "trenguices" atingiu as 1000 visitas. Fantástico. Nunca pensei que tanta gente desse atenção às trenguices que me saltam aos dedos, á noite, enquanto lambo as feridas de mais um dia que passou, e me preparo para as batalhas do dia que há-de vir.
Faz sempre bem ao ego. Fico muito satisfeito. E agradeço a todos os que me visitaram.
Mas o objectivo inicial mantém-se: sou como a maior parte dos verdadeiros artistas portugueses, crio para mim, o que gosto e o que me dá na real gana; se o público gostar tanto melhor. Pena é não ter uns subsídios do estado que suportem a minha brilhante criatividade, como os cineastas que fazem filmes que ninguém vê, os músicos que tocam musícas que ninguém ouve e os bailarinos que encenam bailados que ninguém sente. É que um tipo, sentar-se em frente de um papel branco e esperar que a inspiração para escrever trenguices chegue, não é fácil! Precisava de um PC novo, de alguém que me pagasse a conta da net, gostava de meter aqui as imagens de uma webcam para os amigos de Famalicão não me ligarem ás 9 da manhã de domingo a perguntar se a praia está boa...; ninguém conhece uma amigalhaço do lobi da cultura que me arranje um subsídiozito?
A linha editorial e o estilo vão também manter-se: qualquer coisa que durante o dia me faça pensar durante 5 segundos seguidos é editada sem revisão ou sequer segunda leitura. Daqui a uns anos vou gostar de ler os arquivos.

Peliteiro,   às  01:09
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Estive a ouvir o Prof. Jorge Paiva no canal 1, meu ilustre professor de Botânica e Criptogamia em Coimbra, dizendo coisas que já dizia em 83. Os perigos da desflorestação e o valor de um recurso natural renovável que é a floresta, as vantagens da biodiversidade, as desvantagens da tirania do eucalipto e a dependência económica de espécies de cultura intensiva. O poder económico e político só liga ao imediato, despreza os homens de ciência, e depois quem paga somos nós todos.
Como ainda há pouco escrevi sobre Ofir, suge o caso do Pinhal de Ofir. Uma mancha forestal linda e magnífica, com importância na manutenção da orla costeira, está quase destruída! A fúria construtora está a esmagar aquilo que devia ser uma reserva ecológica - ou mais grave, talvez até o seja já - e os empreendimentos habitacionais (alguns são mamarrachos horríveis) surgem como cogumelos. Pondera-se a implosão das torres de Ofir e no entanto constroi-se - neste momento - bem perto das dunas!

Peliteiro,   às  00:37
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quinta-feira, 7 de agosto de 2003

Partilhando as minhas experiências de férias, cá vão mais duas recomendações de restaurantes. O Tokyo, restaurante japonês na Póvoa de Varzim; e o velho Cruzeiro, em Sª Maria do Bouro, onde se comprova que mesmo em pleno Verão, caiem sempre bem umas papas de sarrabulho com rojões à minhota, desde que, regadas com um bom verde tinto.

Parêntesis. Duas impressões retiradas destes dois restaurantes. Há uns meses, num feriado qualquer de muito movimento, cheguei, sem marcação, com o restaurante Cruzeiro completamente a abarrotar. Recambiaram-me para o Cruzeiro II, instalado numa casa a uns 200 metros de distância. Lá refilei, mas garantiram-me que a cozinha era a mesma e tal e tal. A sala onde nos colocaram tinha um tecto em ogiva, com um candeeiro enorme em forma de bola cristal - como a das discotecas dos anos 70; as casas de banho ficavam divididas dessa sala por uns taipais em madeira cobertos com uns panos a fazer de cortina. Perguntei então ao empregado se aquelas instalações eram provisórias; ele confirma as minhas observações, mas, mas, mas que já lá trabalhava há doze anos e aquilo sempre fora assim. Ora aqui está um bom retrato do sentido empreendedor dos Portugueses: para quê gastar dinheiro se a casa está sempre cheia?!! No Tokyo apreciei o pormenor da casa de banho, onde o chinoca meteu um recipientezito a aparar a pinguinha que sobra do detergente verde de lavar as mãos. Já tinha recuperado aí uns 20 mL do precioso líquido que deve custar mais que um euro por litro. É de poupança que o país precisa, ou como dizia o meu vizinho de infância, o SeManel da SeMaria: Casa em que canta a poupa: do pouco se faz muito. Fim de parêntesis.

No que diz respeito à noite, continuo a preferir, ano após ano, o Pacha de Ofir. Mesmo em Agosto, quando o azeite se torna omnipresente tornando o piso altamente escorregadio, e as baristas e animadoras parecem arrancadas de um bar de alterne, imaginando que são artistas ou bailarinas, e que um dia ainda aparecerão na TV. Lá em Ofir há sempre um espaço livre, fresco e respirável, um refúgio agradável, com os velhos pinheiros a observarem-nos candidamente e as estrelas a orientarem-nos.
Como é possível que um país com tão bom clima tenha espaços de diversão e ócio tão fechados, abafados, emparedados, claustrofóbicos, escuros, e enfumarados? Ainda se percebe que rareiem os carros descapotáveis, mas os restaurantes, bares, discotecas, bibliotecas, cinemas e etc deviam ter sempre um tecto retráctil para abrir no bom tempo!

Peliteiro,   às  23:37
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terça-feira, 5 de agosto de 2003

Afinal o que se passa com os fogos em Portugal?
Têm origem criminosa? A quem interessa a destruição das floretas?
Os bombeiros estão mal equipados, são insuficientes, estão mal organizados?
De há uns anos para cá, o cenário repete-se em todos os Verões. E para o ano que vem, não é preciso ser muito perspicaz, com maior ou menor grau de gravidade, o problema repetir-se-á.
Há que pôr cobro a esta situação! Cambada de incompetentes! Não adianta dizer que este ano foi excepcional, é mentira. Têm que rolar cabeças; o ministro da administração interna devia ser o primeiro a ir para a rua!

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Peliteiro,   às  00:35
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segunda-feira, 4 de agosto de 2003

Recomendação de um restaurante para amigos que gostam de boa comida, bem servida, num sítio agradável:
O Restaurante “AS DA QUINTA” em Afife. Seguindo no sentido Viana-Valença, abandona-se a estrada à indicação “Afife-centro”; logo surgem as indicações do restaurante. É fácil de encontrar, o que já é uma vantagem para a paciência estomacal. O restaurante está instalado numa antiga quintinha, bem conservada e limpa, tem uma área exterior óptima para as tropelias e gritarias da canalhada.
Estando bom tempo, servem ao ar livre, numa espécie de pequena eira. Pode-se ainda optar por duas salas interiores, não muito grandes nem barulhentas ou por uma sala no alpendre, fechado por portadas.
Ambiente calmo, decoração simples com elementos alusivos à vida campestre minhota; mesa grande e cadeiras confortáveis, bem adaptadas a uma boa batalha gastronómica; mesa bem posta; instalações sanitárias impecáveis. Jantamos no alpendre e, para o meu gosto, faltava um pouco mais de luz. Os outros comensais presentes nas mesas próximas não incomodavam e eram discretos (um deles era o Pedro Abrunhosa, que estava sem óculos!)
O serviço é rápido, competente e simpático. Mesmo em Agosto! É uma casa familiar e não sendo um serviço de luxo, o cliente sente-se bem, pela proximidade e atenção dispensada. O dono teria sido emigrante com experiência em hotelaria na Suíça, herdando posteriormente de umas tias a quinta, que adaptou e transformou em restaurante.
A lista não é longa nem muito ambiciosa, mas para um restaurante de pequena dimensão isto pode significar sentido de responsabilidade. É pena que o peixe não seja rei nos restaurantes de um país à beira mar plantado, principalmente em terras costeiras, como é o caso de Afife. A carta de vinhos estava razoavelmente adequada e coerente.
As entradas servidas incluiam pratinhos frios de grão, feijão, ameijoas, favas, salpicão, saladas e mais umas variedades. Não deslumbravam, não inovavam, mas também não desmereciam.
Apostamos no porco. Pedimos “secretos de porco preto” e “lombetas com migas minhotas”. A carne dos secretos é consistente e deliciosa; as migas, com feijão, estavam óptimas. Foi uma boa aposta.
As sobremesas tinham muito bom aspecto, foram apreciadas, e eu fiquei-me por um crepe de frutos silvestres, leve e delicado.
Resumindo, sem ser um achado extraordinário, sem ser uma Meca gastronómica, mereceu ser incluído na lista de “os meus favoritos” por passar com distinção nos três parâmetros: lugar agradável, serviço eficiente, comida bem confeccionada.

Peliteiro,   às  01:14
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De repente ouço um barulho surdo, abafado mas forte. Conduzia, calmamente, a caminho de um jantar. Tive uma premonição de tragédia a partir daquele som. Parei e vi um homem a olhar para o alto de um prédio, com as mãos na cabeça, o meu estomâgo contraiu-se.
Entretanto não ouvi gritos nem correrias pelo que sosseguei. Mas fui espreitar. Era um cão grande, tipo pastor alemão, inanimado na entrada de um “Take Away”; teria caído, da varanda de um andar bem alto.
Podia ter caído em cima de um tranquilo veraneante que tivesse procurado comida para o jantar. Não apareceu o dono, devia estar abandonado em casa por algum “amigo dos animais”.
Podia ser uma criança, foi isso que me afligiu. Sempre tive o pavor das quedas domésticas em altura, por isso este caso me tocou.
As varandas dos nossos prédios são, em geral, uma aberração no que respeita a segurança. Legisla-se sobre tantas picuínhices – e em matéria de segurança nunca é demais – mas a grande maioria das varandas é frágil, é baixa, e tem espaços enormes entre os varões horizontais; O mesmo acontece para o corrimão das escadas interiores, em caracol, sem separações de andares. Um bébé, gatinhando, escapa-se facilmente pelo espaço entre o chão e o primeiro varão, e por vezes há solo firme apenas 10 andares abaixo. Devia ser obrigatório a colocação de redes ou de placas protectores, ainda que transparentes. Desde a morte do filho de Eric Clapton que não se fala deste assunto.
Como é possível não haver legislação nacional sobre este tema de segurança? Quantas mortes são precisas para alguém se lembrar de legislar e fiscalizar?
A propósito, outro perigo iminente e em expansão, com legislação deficiente, é a condução de trotinetas eléctricas, nos passeios e espaços pedonais, a velocidades da ordem dos 30 Km/ hora, por crianças, sem capacete ou vestuário de protecção, sem licença ou formação.


Peliteiro,   às  00:48
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sexta-feira, 1 de agosto de 2003


Dou pouca atenção à publicidade. Nos jornais, os anúncios passam-me completamente despercebidos, é como se fossem espaços vazios; na TV, costumo até desligar o som.
E foi por isso que só agora reparei que já tinha visto uma série de vezes, o Ferro Rodrigues a fazer publicidade ao Nokia 8310. Vi agora mesmo o anúncio na SIC notícias, e embora nem ouvisse o que o Ferro diz, ele levanta o Telemóvel - virado ao contrário! o Ferro não tem jeito nenhum nem para isto! - e rodeado por uns homens com ar de políticos, lá fala sobre o telemovel.
O país está mesmo de rastos, o lídere da oposição já tem que ganhar uns trocados extraordinários ao serviço do grande capital.

Peliteiro,   às  13:02
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Suponhâmos 


Vamos fazer um suponhâmos (1):
Imaginemos um pelotão de soldados, sitiado numa trincheira, na frente de combate.Portugueses na Flandres
Espera-se uma voz de ordem para avançar em direcção às tropas inimigas. O território por onde se dará a progressão é fustigado por peças de artilharia pesada e ligeira, está completamente minado e armadilhado. O inimigo é bem treinado, bem preparado e armado, e são lendárias as carnificinas por eles praticadas. Adivinha-se que o número de baixas seja enorme.
O que fará o soldado, cada um dos soldados, ouvida a ordem - Em frente, ao ataque! -, levantar-se, deixar a segurança do esconderijo, e avançar para um destino que terá como provável desfecho a morte, a dor, a invalidez permanente, o horror?
Imaginemos nós que, de um momento para o outro, eramos transportados para um cenário de guerra semelhante, por exemplo, para a batalha de La Lys, ao lado do soldado Milhões. Tentemos isolar os valores e as motivações que nos fariam levantar, num ímpeto, da trincheira, e fazer parte daquele corpo, que em simultâneo avança para o perigo. Amor á pátria e sentimentos nacionalistas; conquista de terras, interesses económicos e saques; vingança, especialmente de irmãos sacrificados pelos inimigos; razões religiosas; culto da valentia, heroicidade, desprezo pelos fracos e covardes; espírito de grupo; inconsciência, indiferença, ou ausência de alternativa.
É um exercício de pensamento interessante.
Assim de repente, assim de repente, sentado na minha confortável cadeirinha, a bebericar um whisquezinho, e a ver o Fernando Rosas e o Nuno Rogeiro a dissertar sobre o fundamentalismo religioso no poder tirânico do Saddam, bem, acho que das duas uma: ou continuava a jogar à bisca dos três com o camarada do lado, ou levantava-me, num ímpeto, e desatava a correr para a retaguarda, desertava.
Mas agora, outra vez a sério. Da minha experiência militar, e embora tivesse chumbado no curso de oficiais milicianos da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém ? aposto que o Nuno Rogeiro, brilhante especialista em assuntos militares e geoestratégicos, nunca foi à tropa! ? julgo que a motivação será o resultado conjugado de factores de três ordens principais:
a) Motivos sociais: do género dos apontados anteriormente neste texto, altamente exacerbados e deformados pelos serviços de propaganda, pela cadeia de poder militar, pelos mitos, gurus e líderes do regime.
b) Motivos psicológicos: As organizações militares, baseadas em técnicas com experiência milenar, conseguem moldar a vontade e a personalidade dos seus efectivos, numa espécie de alienação colectiva (2), uma espécie de lavagem ao cérebro, que os torna obedientes, acéfalos, ignorantes, manietáveis como autómatos, frios e crueis.
c) Motivos físicos: O que se espera de um homem fisicamente esgotado, que não dorme há 48 horas, não dorme numa cama há meses ( o sono é terrível, deforma o pensamento, transforma-nos em zombies sem vontade ); subnutrido e desidratado; doente ( uma gastroenterite, uma conjuntivite, uma lombalgia, cãibras ); ferido ( feridas ligeiras, é certo, mas dolorosas e purulentas ); com frio ou calor; sujo; infestado por pulgas, carraças, piolhos e parasitas intestinais, mordido pelas ratazanas; num ambiente hostil e sujeito à adrenalina do medo?
É desta massa que se fazem os exércitos, tudo depende do equilíbrio das proporções correctas, ou como se diz na botica, f.s.a., faça segundo a arte.









(1)
A expressão "vamos fazer um suponhâmos" foi captada num julgamento, onde um lavrador se defendia:
- Ó Senhora Doutora Juíza Dona Maria Manuela, vamos fazer aqui um suponhâmos,
- a Senhora Doutora Juíza Dona Maria Manuela, é uma vaca,
- andava a ruminar, sossegada, umas ervas à beira da estrada,
- vem a camioneta de carreira, e sem a Senhora Doutora Juíza Dona Maria Manuela fazer nada, arrrrebenta-lhe c'os cornos.
- A Senhora Doutora Juíza Dona Maria Manuela tem alguma culpa em ter os cornos grandes???
É claro que o lavrador perdeu a causa!

(2)
Uma vez, vinha eu no comboio militar Lisboa Porto de sexta á tarde - onde atingi a experiência transcendental de dormir em pé, solidamente amparado por uma horda compacta de mancebos barulhentos e mal cheirosos - e perto de mim dois grupos, um de recrutas "páras" e outro de comandos, elogiava o comportamento dos seus instrutores. Cada um deles, parecia delirar de satisfação com as provações físicas e as humilhações sofridas naquela semana, infligidas por uns energúmenos com patente. " O nosso tenente obrigou-nos a mergulhar a cabeça na imundícia da fossa do quartel; ele é o máximo, tem o curso de não sei quê, e esteve na legião estrangeira ". " O nosso capitão obrigou-nos a todos a dormir nus na parada e depois obrigou-nos, no pequeno almoço a comer gafanhotos e grilos; ele é mesmo bom, esteve na Guiné, e parece que matou mais de cinquenta turras ". Então, eu que já estava farto de ouvir aquela conversa, e a remoer os castigos e reparos que apanhei - " levante essa cabeçorra, instruendo Peliteiro, essa boina, parece a de um padeiro ", " instruendo Peliteiro, outra vez atrasado para a formatura, encha cem, hoje já não há pequeno almoço", " nunca vi ninguém com tão pouco jeito para a tropa, essas botas estão um nojo" - interpelei-os e disse: porque é que vocês ficam tão satisfeitos com as sacanices que vos fazem? Nada de especial, não queria ser ofensivo, só pedagógico. Ainda por cima, usava boina negra, como a da polícia militar. Foi uma confusão... O que vale é que enquanto esgrimia calmamente a minha argumentação, o Martins calcou o Silva, o Araújo - num solavanco do comboio - bateu com a cabeça na testa do Santos, eles deviam-me ter achado uma presa chata e sem interesse, desprezaram-me e envolveram-se numa alegre batalha de murros e cabeçadas, insultos e palavrões, entre boinas verdes e vermelhas, que durou até Campanhã.

Peliteiro,   às  01:26
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