E já que estou a falar de trabalho, lembro-me de um episódio, passado no Verão passado.
Estava um daqueles dias de praia magníficos, sem vento, sol forte, bikinis por todo o lado, um fininho fresquinho acabado de sorver, conversa agradável. A praia, a melhor praia do mundo, a da Lagoa, na Póvoa, estava completamente lotada, não cabia nem mais uma toalha.
Eis senão quando reparo numa velhinha, praí com 80 anos, poveira típica, toda vestida de preto. Andava ao sargaço. Um trabalho difícil, é preciso entrar na água, com um utensílio tipo engaço gigante, pesado, e contra a força das ondas, puxá-lo para a areia. Depois junta-se em montes e carrega-se com uma cesta, às costas, até terra, onde está estacionado o jumento.
Ora, pode então perguntar-se, não estará aqui nada de errado? Então, aqui só os velhinhos é que trabalham? Porquê? Não será por prazer concerteza! E os filhos e netos da senhora, também estariam na praia? E será que todas aquelas barrigas ao sol estariam a gozar de um merecido descanso?
O mundo ainda é muito injusto.
Entretanto, como acabou o Jornal 2 - este telejornal e o Expresso são os meus olhos para o mundo, só sei o que se passa se for aqui noticiado - fui até à varanda fumar uma cachimbada. E lá estavam, ao largo, as luzinhas dos barcos, que devem ser de pesca artesanal. Ainda são bastantes, quer de Inverno quer de Verão.
Sabendo da dificuldade que há em arranjar quem trabalhe (andei atrás de um picheleiro aí uns 6 meses, até tive que o tratar por comendador), pergunto-me, onde se arranjará mão de obra para este trabalho?
É que é talvez, o trabalho mais difícil, que de repente me lembro. É nocturno, é perigoso e assustador (até eu que mergulho em ondas de 4 metros, em dias de marés vivas, nunca me atrevi a mergulhar no mar à noite), é fisícamente duro, é longo (não há pausas, nem um bar para beber um cafezinho) e faz-se ao sabor dos caprichos da natureza: de Inverno, com a nortada (que até arranca os cabelos e limpa o cerumen das orelhas) e com a chuva gelada tocada a vento, é inacreditável como alguém consegue trabalhar nessas condições.
Será que já há Ucranianos e Moldavos na pescaria? Nunca me apercebi.
E é um trabalho tão importante. Que seria de nós sem o peixinho fresco. Eu grelho um rodovalho com alho e folhas de carvalho que é uma especialidade!
Estes pescadores mereciam ganhar aí uns 5.000 ouros por mês, isentos de impostos.